Este blog tem como objetivo organizar textos que podem ser utilizados como materiais de discussão nas aulas de Língua Portuguesa ou simplesmente promover reflexões sobre a língua. Vá para o link SUMÁRIO para ter acesso à relação de temas e de publicações.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
QUANDO O ERRADO ESTÁ CERTO
Muita gente torce o nariz quando um chatola, como eu, começa a reclamar dos erros de português que se cometem nos jornais e na televisão. Desses, muitos dos que os cometem são profissionais, mas estão pouco ligando para o que consideramos escrever e falar errado.
Sabe-se que, para a maioria dos linguistas,
não existe isso de falar errado: todo o mundo fala certo. Admitem existir uma
"norma culta", que obedece às regras gramaticais, mas violá-las não é
propriamente errar. Ouvi de um deles que está tão certo dizer "pobrema" como
"problema". Obtuso como sou, tenho dificuldade de entender por que eles mesmos
vivem escrevendo livros e colunas em jornais, ensinando como se deve escrever.
Ora, se não existe falar errado, por que ensinar?
Não deve o leitor concluir daí que sou
aquele morrinha que vive catando os deslizes de cada um, mesmo porque não posso
me considerar um grande conhecedor da língua. Gosto dela, prezo-a ou, melhor
dizendo, considero-a uma das extraordinárias criações do gênio humano. Não é
maravilhoso imaginar que, muito antes de surgirem os gramáticos, nossos
ancestrais já falavam obedecendo às normas que tornaram o idioma meio de
comunicação entre as pessoas e de invenção do nosso mundo cultural?
Pense bem nesta maravilha: a palavra "este"
indica algo que está perto de mim; "esse", o que está perto de você; e "aquele",
o que está longe de nós dois. Eis a linguagem expressando as relações reais do
sujeito e das coisas do mundo. Não obstante, todos os locutores de rádio e
televisão, como a maioria dos jornalistas, referindo-se ao que está perto de si,
usam "esse" em lugar de "este". E isso é hoje tão frequente que já nem se
repara.
Ninguém vai morrer por isso, mas não deixa
de ser preocupante observar as pessoas deformarem e empobrecerem a língua,
usando, por exemplo, "sobre" como regência de quase todos os verbos.
Em vez de "comentou os fatos" dizem
"comentou sobre os fatos"; em vez de "quando falou do problema", dizem "quando
falou sobre o problema"; em vez de "alertado do ataque", dizem "alertado sobre o
ataque", e por aí vão.
Em certas frases, o uso de "sobre" chega ao
limite do desatino: "o deputado aguarda o desmentido sobre a denúncia", quando
seria muito mais simples e elegante dizer "aguarda o desmentido da denúncia". Vá
você, agora, explicar como surgiu essa mania do sobre, que espero seja apenas
uma mania, como outras que surgiram e se foram.
Lembram-se da época em que todos usavam a
expressão "a nível de"? Servia para qualquer coisa, como ouvi um entrevistado
afirmar que, "a nível de ração para porcos, o melhor seria...". Felizmente, essa
mania passou, o que me faz crer que a língua termina por excluir de si as
excrescências que nela se introduzem. Mas parece que nem sempre, porque, às
vezes, o mau uso se generaliza e até mesmo se oficializa.
Existe coisa mais descabida do que chamar de
"sambódromo" uma passarela para desfile de escolas de samba? Em grego, "-dromo"
quer dizer "ação de correr, lugar de corrida", daí as palavras autódromo e
hipódromo. É certo que, às vezes, durante o desfile, a escola se atrasa e é
obrigada a correr para não perder pontos, mas não se desloca com a velocidade de
um cavalo ou de um carro de Fórmula 1.
Muitas vezes, à irreverência junta-se a
ignorância, a pouca leitura dos bons escritores. Não é que tenhamos de escrever
como escrevia Camões, mas o conhecimento do idioma, em seus diferentes momentos
históricos e em suas mudanças, ajuda-nos a preservar a língua no que tem de
essencial como também a transformá-la sem lhe trair a natureza. É essa
ignorância que leva alguns redatores de televisão a substituir "risco de vida"
por "risco de morte", achando que esta é a expressão correta. Ganha-se em
obviedade e perde-se em elegância.
Já mencionei aqui, noutra ocasião, a tal lei
da termodinâmica, segundo a qual os sistemas tendem à desordem. Sendo a língua
um sistema, está sujeita a desorganizar-se, como o atestam os exemplos citados,
tanto mais hoje em dia, quando a TV induz milhões de pessoas a falar errado.
Essa mesma TV que poderia se tornar um instrumento decisivo na luta contra a
entropia. Ou será que escrever certo é elitismo?
Ferreira Gullar, artigo publicado na
Folha Ilustrada, do Jornal Folha de São Paulo, de 20 de junho de
2010
ALGUÉM FALA ERRADO?
Alguém fala errado?
FERREIRA GULLAR
folha de s paulo (25/09/2005)
Sei muito bem que, de acordo com a lingüística moderna, não existem o certo e o errado no uso do idioma nacional, ou melhor, não existe o errado, o que significa que tudo está certo e que minha antiga professora de português, que me ensinou a fazer análise lógica e gramatical das proposições em língua portuguesa, era uma louca, uma vez que a língua não tem lógica como ela supunha e a gramática é de fato um instrumento de repressão; perdeu seu tempo dona Rosinha ensinando-me que o verbo concorda com o sujeito, e os adjetivos com os substantivos, como também concordam com estes os artigos, ou seja, que não se deve dizer dois dúzias de ovos, uma vez que dúzia é palavra feminina, donde ter que dizer "duas dúzias de ovos", o que era, como sei agora, um ensinamento errôneo ou, no máximo, correto apenas naquela época, pois hoje ouço na televisão e leio nos jornais "as 6 milhões de pessoas", construção indiscutivelmente correta hoje, quando os artigos não têm mais que concordar com os substantivos e tampouco com o verbo, como me ensinara ela, pois me corrigia quando eu dizia "ele foi um dos que fez barulho", afirmando que eu deveria dizer "um dos que fizeram barulho", e me explicava que era como se dissesse "foi um dos três que fizeram barulho", explicação antiquada, do mesmo modo que aquela outra referente à regência dos verbos e que eu, burróide, entendi como certo quando, na verdade, o certo não é, por exemplo, dizer "a comida de que ela necessita" ou "o problema de que falou o presidente", e, sim, "o problema que falou o presidente", frase que, no meu antiquado entendimento, resulta estranha, pois parece dizer não que o presidente falou do problema, mas que o problema falou do presidente, donde se conclui que sou realmente um sujeito maluco, que já está até ouvindo "vozes" e, além de maluco, fora de moda, porque não se conforma com o fato de terem praticamente eliminado de nossa língua as palavras "este" e "esta", que foram substituídas por "esse" e "essa", pois sem nenhuma dúvida é uma tolice querer que o locutor da televisão, referindo-se à noite em que fala, diga "no programa desta noite" em lugar de "no programa dessa noite", que, dentro do critério de que o errado é certo, está certíssimo, ao contrário do que exige esta minha birra, culpa da professora Rosinha, por ter insistido em nos convencer de que "este" designa algo que está perto de mim, "esse", algo que está perto de você e "aquele", o que está longe dos dois, e ainda a minha teimosia em achar que essas palavras correspondem a situações reais da vida, não são meras invenções de gramáticos; e, de tão sectário que sou nesta mania de preservar a língua, não suporto ouvir a expressão "isto não significa dizer" em vez de "isto não quer dizer", que é o correto, ou era, além de expressão legítima, enquanto a outra é um anglicismo, mas que, por isso mesmo, há quem considere ainda mais correta, porque estamos na época da globalização, o que torna mais bobo ainda implicar com estrangeirismos, como aquele meu amigo que fica irritado ao ler nos jornais que "a reunião da Câmara foi postergada para segunda-feira", em vez de "adiada", como sempre se disse e que facilita o entendimento da maioria das pessoas, já que nem todos os brasileiros amargaram o exílio em países de língua espanhola. Mas já quase admito ser muita pretensão teimar em dizer "o governador cogita de enviar à Câmara um novo projeto de lei", pois isso de que o verbo "cogitar" rege a preposição "de" também é bobagem, coisa de gente pretensiosa que precisa se impor às outras falando arrogantemente "correto", como se houvesse modo de falar certo ou errado, de falar correto, pois a verdade é que tal pretensão oculta um preconceito de classe, uma discriminação contra aqueles que não tiveram oportunidade de estudar e, por essa razão, não podem falar como os que usufruíram do privilégio burguês, ou pequeno-burguês, de estudar gramática, o que vem acentuar a injustiça social. Como se não bastasse serem aqueles pobres discriminados no trabalho e no conforto, ainda se acrescenta essa discriminação, acusando-os de falarem mal a língua, da qual são eles de fato os criadores e que foi apropriada pelos ricos e poderosos que agora se consideram donos dela, como de tudo o mais que existe neste mundo, pois eles de fato não toleram a hipótese de que todas as pessoas sejam iguais e que todas elas falem corretamente ainda que gramáticos elitistas insistam em dizer que falam errado só porque não falam segundo as normas da classe dominante, que, além de impedir os pobres de estudar, acusam-nos de serem ignorantes, atitude de fato inaceitável, pois sabemos que todas as pessoas são igualmente inteligentes e talentosas, portanto capazes de criar obras de arte geniais, de conceber teorias iguais às que conceberam Galileu e Einstein, e só não o fazem porque são deliberadamente impedidas de dar vazão a seu gênio criador; e também neste caso se comete a injustiça de consagrar como gênios alguns homens privilegiados e não atribuir qualquer valor aos milhões, perdão, às milhões de pessoas tidas como comuns, e só não consigo entender é por que os lingüistas que defendem tais idéias continuam a escrever corretamente tal como exigia minha professora do colégio São Luís de Gonzaga, naqueles distantes anos da década de 1940... Diante disto, não está mais aqui quem falou.
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
Variações linguísticas: NINGUÉM FALA COMO LIVRO
Ninguém fala como livro
Desde criança vivemos uma vigilância sobre o uso do idioma.
Evanildo Bechara
Um dos cuidados fundamentais da educação lingüística, a "correção da linguagem" começa nos primeiros ensaios da fala da criança em contato com seus familiares, que são, em geral, os primeiros professores de língua que ela conhece, correção que se prolonga pelo resto da vida. Entre esses professores, está, sem sombra de dúvida, em lugar de relevo, a mãe, razão por que - talvez - se diga da língua nativa "língua materna" (e não "língua paterna"), pois com ela a criança mantém, nos anos iniciais da existência, contato mais amiudado e profundo.
É nessa fase que surgem as primeiras observações em busca de um padrão lingüístico "normal", isto é, que respeite a normalidade do uso vigente no seio da família. As correções iniciais incidem na articulação dos fonemas da língua, especialmente aquelas articulações que a criança domina por último (a troca do r por l); são ainda dessa fase os avisos quanto à troca de posição de fonemas dentro da palavra (cardeneta por caderneta), a certos grupos consonantais menos comuns no dia-a-dia (biciqueta por bicicleta), a certos desvios de acentuação tônica (gratuíto por gratuito, récem por recém).
Como, por essa quadra da vida e mais adiante, a criança domina o sistema da língua, isto é, o "regular", mas não a norma, isto é, o "normal" no uso (nem sempre há coincidência entre o sistema e a norma da língua), vêm as correções nas formas nominal e verbal do tipo "não é padrinha, e sim madrinha"(a criança já intuíra que na oposição -o final/-a final faz o idioma a oposição masculino/feminino, como em tio/tia, primo/prima etc.); "não é fazi e sim fiz"; "não é fazeu, e sim fez"(ao peso de flexões como temi, perdi e temeu, perdeu); "não é trazi, e sim trouxe", "não é trazeu, e sim trouxe" etc.
Ao entrar para as séries iniciais da escola e já alfabetizada, a criança deve ter aprendido a evitar a maioria desses enganos de língua, se a ação da família foi efetiva e constituiu um modelo eficaz ao bom desempenho lingüístico do nosso jovem. Nos bancos escolares, começa a conhecer uma nova modalidade de língua; a escrita, que passa a conviver com a até então exclusiva língua falada de sua bagagem idiomática.
O risco do padrão
À medida que a escola vai oferecendo ao nosso jovem as páginas de histórias, poesias, crônicas, alguns enganos de ordem lingüística e pedagógica se vão fixando em sala de aula de língua portuguesa, enganos de conseqüências perigosas e funestas devido ao trabalho e ação de professores mal informados e à aprendizagem de alunos mal orientados.
O primeiro engano de natureza lingüística é a suposição de que a língua portuguesa desse momento é uma realidade homogênea e unitária, e a sua única e legítima expressão é a língua padrão refletida e concretizada nos textos escritos veiculados pela escola entre os alunos. Esse ledo engano sinonimiza a língua portuguesa com a língua escrita, com a língua literária, com a língua padrão ou standard, de modo que português só é o que está na gramática e no dicionário, abonado pelo prestígio dos bons escritores. Fora dessa realidade, dizem os professores mal informados, "isso não pode ser dito" ou, o que é mais grave, "isso não é português" (é o caso de perguntar o aluno: "então que língua é essa, se não é português o que eu digo?").
Ora, é um lamentável engano de conhecimento de lingüística, isto é, de ciência das línguas, esse de imaginar uma língua histórica - como o português, o inglês, o francês etc. - uma realidade homogênea e unitária. Uma língua histórica é um conjunto de idiomas mais ou menos semelhantes e mais ou menos distintos, ainda que considerados num só momento de seu percurso histórico, por exemplo, o português dos nossos dias. Há nessa língua histórica diferenças regionais, os chamados dialetos, como o português do Brasil, o de Portugal, o da África. Mesmo no Brasil ou em Portugal ou na África, persistem as diferenças geográficas: o português do Norte do Brasil, o português sulista. Numa determinada região, por exemplo, no português do Recife, notam-se diferenças nos estratos sociais desse falar regional, os chamados dialetos sociais, como a variedade da classe culta, a da classe semiculta e a dos analfabetos, a língua popular.
Existem ainda as variedades estilísticas, isto é, as que existem entre a língua escrita - em geral cuidada, tensa - e a língua falada, espontânea; entre a língua "de uso" e a língua literária; entre a língua corrente e a língua técnica, inclusive a burocrática; entre a língua da prosa e da poesia.
Variáveis das variantes
Todas essas variedades regionais, sociais e estilísticas são igualmente válidas e importantes do ponto de vista lingüístico, cientificamente falando. Está claro que cada uma é adequada ao tipo de cada falante e a cada circunstância da vida social, do nosso compromisso com o contexto e com a natureza do nosso ouvinte ou destinatário. Se erro existe, é querer usar de uma variedade quando a norma social exige outra variedade mais adequada. Por isso, está equivocada a pessoa que pensa que saber português é só saber falar empolado, difícil ou, como também se diz, falar como um livro. É o mesmo engano da pessoa que pensa que se vestir bem é vestir-se de uma só maneira, quer vá ao casamento, ao trabalho, ao cinema, à praia ou à feira. Em algum ou alguns desses momentos estará cometendo uma gafe no falar ou no vestir.
Muita gente pensa que "se aproxima" do seu ouvinte, que "o conquista" mais facilmente, falando ou escrevendo numa variedade de língua menos exigente e mais corriqueira. É como se falasse para adultos com a modalidade própria da que se usa com as crianças, porque os considera como filhos.
Falar ou escrever para outrem, ainda que de condição cultural abaixo da sua, exige dignidade, que já é uma faceta do respeito que se deve ao semelhante. Um repórter bem vestido que fale dos Estados Unidos ou da França ao telespectador brasileiro com "vi ele" ou "encontrou ela" é como se passasse, por antecipação, um atestado de ignorância ao público, por achar que "vi-o" ou "encontrou-a" são formas de dizer incompatíveis com a pouca dignidade cultural ou o baixo grau de escolaridade terceiro-mundista. Daí, talvez, preferir chamar os telespectadores de "galera", esquecendo-se de que, quando a Orquestra Sinfônica se apresenta na Quinta da Boa Vista, a "galera humilde" vibra com os clássicos e aplaude Carlos Gomes, Chopin ou Mozart. Perde o repórter que assim procede a oportunidade de instruir os que sabem menos do que ele e esperam mais da TV brasileira.
Erro pedagógico
Tão grave quanto o desconhecimento que vimos apontando é o erro pedagógico. Partindo da idéia de que essa língua padrão ou standard é uma imposição da "classe dominante", da "língua do poder", e de que o aluno já se comunica muito bem por meio da variedade viva que trouxe de casa e vigora e revigora na rua, nas praças e até em certo tipo de literatura de crônicas do quotidiano, de fatos do dia-a-dia, com intuitos de lazer e com finais humorísticos, há professores mal informados e pedagogos engajados que defendem que a variedade a ser cultivada e cultuada na escola é essa língua "natural" falada, viva e espontânea, sob a bandeira tão aplaudida pelos jovens que não querem esforçar-se na sua risonha e brincalhona passagem pelos bancos escolares, onde a exigente e suada aprendizagem não ocupa o lugar privilegiado da merenda escolar e das brincadeiras no recreio. É pedagogia de aprender brincando. Em tudo isso há, naturalmente, honrosas exceções que, pelo seu minguado número, justificam a regra
É nessa fase que surgem as primeiras observações em busca de um padrão lingüístico "normal", isto é, que respeite a normalidade do uso vigente no seio da família. As correções iniciais incidem na articulação dos fonemas da língua, especialmente aquelas articulações que a criança domina por último (a troca do r por l); são ainda dessa fase os avisos quanto à troca de posição de fonemas dentro da palavra (cardeneta por caderneta), a certos grupos consonantais menos comuns no dia-a-dia (biciqueta por bicicleta), a certos desvios de acentuação tônica (gratuíto por gratuito, récem por recém).
Como, por essa quadra da vida e mais adiante, a criança domina o sistema da língua, isto é, o "regular", mas não a norma, isto é, o "normal" no uso (nem sempre há coincidência entre o sistema e a norma da língua), vêm as correções nas formas nominal e verbal do tipo "não é padrinha, e sim madrinha"(a criança já intuíra que na oposição -o final/-a final faz o idioma a oposição masculino/feminino, como em tio/tia, primo/prima etc.); "não é fazi e sim fiz"; "não é fazeu, e sim fez"(ao peso de flexões como temi, perdi e temeu, perdeu); "não é trazi, e sim trouxe", "não é trazeu, e sim trouxe" etc.
Ao entrar para as séries iniciais da escola e já alfabetizada, a criança deve ter aprendido a evitar a maioria desses enganos de língua, se a ação da família foi efetiva e constituiu um modelo eficaz ao bom desempenho lingüístico do nosso jovem. Nos bancos escolares, começa a conhecer uma nova modalidade de língua; a escrita, que passa a conviver com a até então exclusiva língua falada de sua bagagem idiomática.
O risco do padrão
À medida que a escola vai oferecendo ao nosso jovem as páginas de histórias, poesias, crônicas, alguns enganos de ordem lingüística e pedagógica se vão fixando em sala de aula de língua portuguesa, enganos de conseqüências perigosas e funestas devido ao trabalho e ação de professores mal informados e à aprendizagem de alunos mal orientados.
O primeiro engano de natureza lingüística é a suposição de que a língua portuguesa desse momento é uma realidade homogênea e unitária, e a sua única e legítima expressão é a língua padrão refletida e concretizada nos textos escritos veiculados pela escola entre os alunos. Esse ledo engano sinonimiza a língua portuguesa com a língua escrita, com a língua literária, com a língua padrão ou standard, de modo que português só é o que está na gramática e no dicionário, abonado pelo prestígio dos bons escritores. Fora dessa realidade, dizem os professores mal informados, "isso não pode ser dito" ou, o que é mais grave, "isso não é português" (é o caso de perguntar o aluno: "então que língua é essa, se não é português o que eu digo?").
Ora, é um lamentável engano de conhecimento de lingüística, isto é, de ciência das línguas, esse de imaginar uma língua histórica - como o português, o inglês, o francês etc. - uma realidade homogênea e unitária. Uma língua histórica é um conjunto de idiomas mais ou menos semelhantes e mais ou menos distintos, ainda que considerados num só momento de seu percurso histórico, por exemplo, o português dos nossos dias. Há nessa língua histórica diferenças regionais, os chamados dialetos, como o português do Brasil, o de Portugal, o da África. Mesmo no Brasil ou em Portugal ou na África, persistem as diferenças geográficas: o português do Norte do Brasil, o português sulista. Numa determinada região, por exemplo, no português do Recife, notam-se diferenças nos estratos sociais desse falar regional, os chamados dialetos sociais, como a variedade da classe culta, a da classe semiculta e a dos analfabetos, a língua popular.
Existem ainda as variedades estilísticas, isto é, as que existem entre a língua escrita - em geral cuidada, tensa - e a língua falada, espontânea; entre a língua "de uso" e a língua literária; entre a língua corrente e a língua técnica, inclusive a burocrática; entre a língua da prosa e da poesia.
Variáveis das variantes
Todas essas variedades regionais, sociais e estilísticas são igualmente válidas e importantes do ponto de vista lingüístico, cientificamente falando. Está claro que cada uma é adequada ao tipo de cada falante e a cada circunstância da vida social, do nosso compromisso com o contexto e com a natureza do nosso ouvinte ou destinatário. Se erro existe, é querer usar de uma variedade quando a norma social exige outra variedade mais adequada. Por isso, está equivocada a pessoa que pensa que saber português é só saber falar empolado, difícil ou, como também se diz, falar como um livro. É o mesmo engano da pessoa que pensa que se vestir bem é vestir-se de uma só maneira, quer vá ao casamento, ao trabalho, ao cinema, à praia ou à feira. Em algum ou alguns desses momentos estará cometendo uma gafe no falar ou no vestir.
Muita gente pensa que "se aproxima" do seu ouvinte, que "o conquista" mais facilmente, falando ou escrevendo numa variedade de língua menos exigente e mais corriqueira. É como se falasse para adultos com a modalidade própria da que se usa com as crianças, porque os considera como filhos.
Falar ou escrever para outrem, ainda que de condição cultural abaixo da sua, exige dignidade, que já é uma faceta do respeito que se deve ao semelhante. Um repórter bem vestido que fale dos Estados Unidos ou da França ao telespectador brasileiro com "vi ele" ou "encontrou ela" é como se passasse, por antecipação, um atestado de ignorância ao público, por achar que "vi-o" ou "encontrou-a" são formas de dizer incompatíveis com a pouca dignidade cultural ou o baixo grau de escolaridade terceiro-mundista. Daí, talvez, preferir chamar os telespectadores de "galera", esquecendo-se de que, quando a Orquestra Sinfônica se apresenta na Quinta da Boa Vista, a "galera humilde" vibra com os clássicos e aplaude Carlos Gomes, Chopin ou Mozart. Perde o repórter que assim procede a oportunidade de instruir os que sabem menos do que ele e esperam mais da TV brasileira.
Erro pedagógico
Tão grave quanto o desconhecimento que vimos apontando é o erro pedagógico. Partindo da idéia de que essa língua padrão ou standard é uma imposição da "classe dominante", da "língua do poder", e de que o aluno já se comunica muito bem por meio da variedade viva que trouxe de casa e vigora e revigora na rua, nas praças e até em certo tipo de literatura de crônicas do quotidiano, de fatos do dia-a-dia, com intuitos de lazer e com finais humorísticos, há professores mal informados e pedagogos engajados que defendem que a variedade a ser cultivada e cultuada na escola é essa língua "natural" falada, viva e espontânea, sob a bandeira tão aplaudida pelos jovens que não querem esforçar-se na sua risonha e brincalhona passagem pelos bancos escolares, onde a exigente e suada aprendizagem não ocupa o lugar privilegiado da merenda escolar e das brincadeiras no recreio. É pedagogia de aprender brincando. Em tudo isso há, naturalmente, honrosas exceções que, pelo seu minguado número, justificam a regra
Fonte : Revista Educação - Edição 112
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
GERÚNDIO x Gerundismo
RICARDO FREIRE
A luta vai estar continuando
'Este artigo foi feito especialmente para que você possa estar recortando e possa estar deixando discretamente sobre a mesa de alguém que não consiga estar falando sem estar espalhando essa praga terrível da comunicação moderna, o futuro do gerúndio'.
Naquele tempo, nem todo mundo ainda tinha se dado conta de que o português do Brasil estava sendo contaminado por um tempo verbal esdrúxulo, contrabandeado por más traduções de livros de marketing. A situação era grave. Se nada fosse feito, em breve aquilo seria consi- derado correto e incorporado à gramática brasuca.
Tratava-se de uma campanha educativa: 'Mais do que estar repreendendo ou estar caçoando, o objetivo deste movimento é estar fazendo com que esteja caindo a ficha nas pessoas que costumam estar falando desse jeito sem estar percebendo'.
Em tom de manifesto, eu continuava: 'Nós temos de estar nos unindo para estar mostrando a nossos interlocutores que, sim!, pode estar existindo uma maneira de estar aprendendo a estar parando de estar falando desse jeito'.
No fim do mês passado, esse texto fez cinco anos - o que significa que estamos já há meia década em guerra contra o terrível gerundismo. Será que temos algo a comemorar?
Acredito que sim. Pelo que sei, muitos bancos e operadoras de telemarketing - os próprios laboratórios de onde essa doença escapou para as ruas - empenharam-se em campanhas para erradicar o gerundismo de seu ambiente (em alguns casos, usando até aquele texto como apostila).
Hoje, o gerundismo deixou de ser uma conspiração de grandes empresas contra nossos ouvidos e tornou-se um vício de caráter privado, como o cigarro, o álcool ou o bingo. Ainda não existem clínicas de reabilitação para gerundistas, mas é só uma questão de tempo. Só quem já se viu dominado sabe quanto é difícil largar o gerundismo. Às vezes, o 'eu vou estar transferindo a sua ligação' é mais forte que você.
Felizmente, o pior não aconteceu. Se nada tivesse sido feito há cinco anos, a que ponto teríamos chegado? Não custa nada imaginar.
A esta altura, o gerundismo já teria escapulido das relações de compra e venda e invadido outros territórios, como o dos ditados. De 'ter é poder' para 'estar tendo é estar podendo' é um pulo. O último que vai estar chegando é a mulher do padre. É estar pegando ou estar largando!
As crianças, graças aos céus, continuam imunes. Ainda não se canta 'Ciranda, cirandinha, vamos todos estar cirandando'. Pais e padrinhos não perguntam 'O que você vai estar sendo quando vá estar crescendo?'. Garotos brigões não ameaçam 'Eu vou tá te pegando na saída!'.
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Ilustração: Fido Nesti
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Enquanto o gerundismo permanecer fora dos estádios de futebol - e o 'Vamuláááá!' não se transformar em 'Vamotaindolááááá!' -, saberemos que a situação está sob controle, e o gerundismo um dia passará, como um 'a nível de' qualquer.
De todo modo, vencemos algumas batalhas, mas a guerra ainda não está ganha. O lema do movimento continua o mesmo: não vamos estar nos dispersando!
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDR73498-6016,00.html
terça-feira, 2 de outubro de 2012
A Língua na internet
PENÚLTIMA FLOR DO LÁCIO
Josué Gomes da Silva
Nada mais lógico, pois agora a última "flor do Lácio", nem sequer certamente entendida de modo pleno pelos antigos leitores de Bilac, é o português "falado" pelos jovens na internet e nas redes sociais.
São numerosos códigos, abreviaturas oficiosas, neologismos e construções gramaticais "inovadoras" que descaracterizam nosso idioma, considerado um dos mais ricos, complexos e positivamente redundantes sob o aspecto da linguística e da semiótica.
Desde os simples e já ultrapassados e-mails até o Twitter, o Facebook, o Orkut, o SMS e outros aplicativos, crianças e jovens comunicam-se com extrema agilidade e fluência, usando seus computadores, celulares e tablets.
O mais extraordinário é que, nesse "webportuguês", privilegiando consoantes, conseguem expressar todo tipo de informação, bem como emoções e sentimentos nas suas mensagens de Natal, Dia das Mães, Dia dos Pais e até nas declarações ao primeiro amor.
Pouco a pouco, os adultos, de maneira inevitável, vão incorporando a linguagem dos jovens na internet. Surge novas maneiras de expressão adequadas às mudanças culturais que a tecnologia suscita. Agilidade é tudo o que precisa uma sociedade na qual o tempo tornou-se commodity comportamental. Os jovens intuíram isso antes de todos, percebendo que a síntese eleva muito a produtividade da comunicação nas mídias digitais. Um ensinamento para ninguém botar defeito.
Portanto, nada a criticar. Mas há algo a ser considerado. Simultaneamente ao uso de sua criativa e eficaz linguagem, crianças e jovens não podem perder-se quanto à boa e sempre renovada língua portuguesa. Isso reforça a importância da qualidade do ensino do idioma nas escolas e o papel das famílias na atenção ao "certo", tanto no acompanhamento das lições de casa, quanto valorizando os bons hábitos semânticos, gramaticais e lexicais no cotidiano.
Da mesma maneira que o já corriqueiro aprendizado do inglês não deve impedir que o bom português seja cultivado na infância e na juventude, o idioma "internético" não pode ser empecilho à correção no uso de nossa língua pátria.
Creio que o mais importante nesse tema seja a democratização da excelência do ensino e do acesso aos computadores e à web. Se garantirmos isso, as futuras gerações falarão e escreverão de modo escorreito a "penúltima flor do Lácio". Vc tb concorda, bro?
JOSUÉ GOMES DA SILVA escreve aos domingos nesta coluna.
Vocabulário: crítica ao estrangeirismo
Ludopédio no gramado
Maílson
da Nóbrega
"O uso de estrangeirismo
costuma enriquecer
o idioma. Amplia o vocabulário. Contribui para
simplificar
a linguagem. Facilita a comunicação
e a exposição
de ideias. O inglês é um bom exemplo"
Se o governador Roberto Requião vivesse e
pudesse fazer a lei no fim do século XIX – quando o futebol chegou
ao Brasil –, a palavra poderia não existir entre nós, dadas
as complicações da norma. Nas propagandas, o vocábulo football
teria de ser traduzido para o português. Ao seu lado apareceria ludopédio
(futebol, segundo o dicionário Houaiss).
É
assim que reza projeto recentemente aprovado pela Assembleia Legislativa do Paraná,
por proposta do governador. Obriga a tradução de palavras de outros
idiomas em propaganda no estado. O objetivo, segundo Requião, é
"o reconhecimento e a valorização da língua pátria".
A base seria o princípio da soberania nacional (artigo 1º da Constituição).
Se
a regra fosse nacional e existisse naquela época, haveria que encontrar
tradução para termos ingleses hoje incorporados ao mundo do futebol:
esporte, time, gol, drible, craque. O jeitão de ridículo de ludopédio
talvez se tornasse familiar. Isso aconteceu com escanteio e impedimento, que substituíram
corner e off-side.
O paranaense Coritiba teria outro nome.
Seu título oficial é Coritiba Foot Ball Club (www.coritiba.com.br).
Seria complicado traduzir as três palavras inglesas em propaganda. Procuradores
poderiam questionar o seu uso na fachada da sede do Coritiba. Melhor chamar-se
Sociedade Recreativa Coritiba de Ludopédio.
O mesmo
xenofobismo está na base de projeto de lei do deputado federal Aldo Rebelo.
Pela proposta, toda e qualquer palavra ou expressão em língua estrangeira
usada no território nacional ou em repartição brasileira
no exterior teria de ser substituída "por palavra ou expressão
equivalente em língua portuguesa no prazo de noventa dias a contar do registro
da ocorrência". Haveria umas poucas exceções.
A
absorção de palavras estrangeiras é típica das línguas
vivas e fruto do intercâmbio de bens, serviços, pessoas e ideias.
O mesmo ocorreu na dominação estrangeira, como na introdução
forçada do latim pelos romanos e de línguas europeias pelos impérios
coloniais, incluindo o português no Brasil. Durante mais de dois séculos
depois da conquista da Inglaterra pelos normandos (1066), o francês foi
a língua oficial da corte.
O uso de estrangeirismo
costuma enriquecer o idioma. Amplia o vocabulário. Contribui para simplificar
a linguagem. Facilita a comunicação e a exposição
de ideias. O inglês é um bom exemplo. Aberto à influência
externa, ganhou inúmeras palavras durante as invasões romana (o
nome da capital vem do latim Londinium) e normanda. E importou milhares do idioma
de países que dominou e de muitos outros.
Apenas 20%
a 30% das 80 000 palavras inglesas dicionarizadas pertencem às suas
origens saxônicas. O francês, que teria contribuído com parcela
semelhante, está muito presente nas artes e na culinária. O latim
está nas ciências e o grego, na medicina (como também ocorre
em outras línguas). Palavras espanholas, italianas, russas, indianas e
outras integram o vocabulário inglês. O português chegou direto
com bossa nova, cobra e piranha ou por adaptação com cashew (caju),
manioc (mandioca) e mulatto (mulato).
O português se
beneficiou de muitos vocábulos estrangeiros. Nem nos damos conta de que
o francês nos trouxe ateliê, atachê, bufê, cinema, filé,
perfume, sutiã. O inglês nos forneceu xampu, nomes de esportes (além
do futebol, beisebol, voleibol, basquetebol, handebol, golfe, tênis), bife,
buldogue, zíper, estresse. Se houvesse a Lei Requião, como seriam
traduzidas a italiana pizza, a árabe esfirra e a espanhola paella?
A
tecnologia continua a trazer estrangeirismos, que os jovens adotam rapidamente
e os adultos, mais tarde. Mesmo quando há correspondentes em português,
a preferência é importar e aportuguesar termos ingleses: deletar,
atachar, inicializar. Deletar, que está no Aurélio, é
mais um vocábulo de raiz latina (delere) no idioma de Shakespeare.
Em
Portugal, o mouse do computador é rato mesmo. O que ganhariam os paranaenses
se nas propagandas aparecesse rato ao lado de mouse? Nada. A Lei Requião
é, pois, uma tremenda tolice. Ela não reforçará a
soberania nacional. Significará apenas aumento de custos, perda de tempo
e falta do que fazer.
fonte: http://veja.abril.com.br/290709/ludopedio-no-gramado-p-107.shtml
VOCABULÁRIO- Você sabe o que é FLUNFA?
Sou mais a flunfa
03 de junho de 2012 | 6h 42
Humberto Werneck
Com tanta palavra no dicionário, será que existe uma para cada coisa?
Claro que existe, disse eu de bate-pronto, e saquei um exemplo:
– Sabem o nome desses pelos dentro do nariz?
Segundos de silêncio eivado de inveja lexicográfica, antes que viesse eu iluminar a ignorância dos presentes:
– Vibrissas.
Arrasei! Só não contava com a volta por cima de um desmancha-prazeres:
– E aquele algodãozinho no umbigo no final do dia?
Algodãozinho? Umbigo? Apanhado no contrapé, o sabichão coçou o
imaginário cavanhaque, rosnando para dentro: ah, isso não vai ficar
assim! E não ficou mesmo. Tanta coisa urgente me esperando, mas parei
tudo – e por muitas horas nada fiz senão escarafunchar o umbigo da
língua portuguesa, até estar em condições de anunciar: aquilo tem nome,
sim.
Chama-se flunfa.
Não perca tempo folheando o Houaiss ou qualquer outro dicionário,
pois nenhum deles sabe o que é a flunfa. Em vez disso, refaça meus
passos no Google, onde fui informado de que a palavra não só existe como
comparece numa crônica do Verissimo, e já faz tempo, num livro de 1997,
A mãe de Freud.
Fui encontrá-la também no Urban Dictionnary, igualmente consultável
na internet. Pode ter sido posta ali por algum brasileirinho, mas a raiz
do neologismo é a palavra inglesa fluff – “macia massa de fibras de lã e
outros materiais, acumulada em lugares onde não é desejada”. No umbigo,
por exemplo. Mas disso não sabiam vocês aí, os 206 membros da
comunidade “Bolinhas de algodão no umbigo”, criada no Orkut para cultuar
semelhante insignificância.
Insignificância? Pois fique sabendo que a flunfa desfruta do status
de objeto da ciência, estudada que foi pelo químico austríaco Georg
Steinhauser. Durante três anos ele se dedicou à análise de 503 amostras
coletadas em seu próprio umbigo, daí resultando um artigo na Medical
Hypothesis. Sem usar a palavra flunfa, ou mesmo fluff, o Steinhauser
revelou que o depósito umbilical é uma porcarieira em cuja composição
entram fiapos de roupa, como já sabíamos, mas também fragmentos de pele
morta, gordura corporal, suor e poeira. Coisa demais para nossos
despretensiosos umbigos, convenhamos.
Três anos foram pouco, no entanto, para que esse abnegado da ciência
elucidasse todas as transcendentais questões postas pela flunfa. Cansado
de contemplar sua barriga, o dr. Steinhauser jogou a toalha,
legando-nos um desafiador enigma: “Por que certos umbigos coletam mais
fiapos do que outros?”
A resposta poderia vir de outro apaixonado pelo relevante assunto, o
australiano Graham Baker, que em 17 de janeiro de 1984 (tudo
criteriosamente registrado) se pôs a colecionar o conteúdo de seu
umbigo, tendo por isso merecido ingresso no Guinness Book.
O problema é que o Baker não chega a ser um cientista, ao contrário
do Steinhauser, que antes de ocupar da flunfa já se notabilizara por um
estudo sobre a corrosão de sua aliança de ouro durante o primeiro ano de
casamento. Como para deixar claro que nem tudo se corrói, dedicou à
mulher, Veronika, o trabalho publicado no Gold Bulletin, no qual
aprendemos que o principal fator de desgaste, mais do que a jardinagem e
a prática do ski, é a areia da praia.
Nenhuma referência ao hábito de pular cercas. Em um ano o anel havia
perdido 6,15 mg de ouro – constatação que descortina excitante disputa
para saber o que vai acabar primeiro, o casamento ou a aliança.
Não é justo que nenhuma das pesquisas do Steinhauser tenha recebido o
prêmio IgNobel, atribuído a trabalhos científicos que se destacam pela
bizarria. Nada ficam a dever a estudos premiados que esmiuçaram os
momentosos temas da massagem retal usada pela curar soluços, da
capacidade que têm os pinguins de defecar a 40 cm de distância, dos
suicídios relacionados com o hábito de ouvir música country no rádio ou
das dançarinas eróticas que ganham gorjetas mais alentadas quando estão
ovulando.
Olha, sou mais a flunfa. E você?
http://www.estadao.com.br/noticias/geral,sou-mais-a-flunfa,881738,0.htm
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