Este blog tem como objetivo organizar textos que podem ser utilizados como materiais de discussão nas aulas de Língua Portuguesa ou simplesmente promover reflexões sobre a língua. Vá para o link SUMÁRIO para ter acesso à relação de temas e de publicações.
terça-feira, 12 de março de 2013
sexta-feira, 1 de março de 2013
Vocabulário- Ludopédico no gramado
Texto LUDOPÉDIO NO GRAMADO
Maílson da Nóbrega Ludopédio no gramado
da Veja
"O uso de estrangeirismo costuma enriquecer
o idioma. Amplia o vocabulário. Contribui para
simplificar a linguagem. Facilita a comunicação
e a exposição de ideias. O inglês é um bom exemplo"
o idioma. Amplia o vocabulário. Contribui para
simplificar a linguagem. Facilita a comunicação
e a exposição de ideias. O inglês é um bom exemplo"
Se o governador Roberto Requião vivesse e pudesse fazer a lei no fim do século XIX – quando o futebol chegou ao Brasil –, a palavra poderia não existir entre nós, dadas as complicações da norma. Nas propagandas, o vocábulo football teria de ser traduzido para o português. Ao seu lado apareceria ludopédio (futebol, segundo o dicionário Houaiss).
É assim que reza projeto recentemente aprovado pela Assembleia Legislativa do Paraná, por proposta do governador. Obriga a tradução de palavras de outros idiomas em propaganda no estado. O objetivo, segundo Requião, é "o reconhecimento e a valorização da língua pátria". A base seria o princípio da soberania nacional (artigo 1º da Constituição).
Se a regra fosse nacional e existisse naquela época, haveria que encontrar tradução para termos ingleses hoje incorporados ao mundo do futebol: esporte, time, gol, drible, craque. O jeitão de ridículo de ludopédio talvez se tornasse familiar. Isso aconteceu com escanteio e impedimento, que substituíram corner e off-side.
O paranaense Coritiba teria outro nome. Seu título oficial é Coritiba Foot Ball Club (www.coritiba.com.br). Seria complicado traduzir as três palavras inglesas em propaganda. Procuradores poderiam questionar o seu uso na fachada da sede do Coritiba. Melhor chamar-se Sociedade Recreativa Coritiba de Ludopédio.
O mesmo xenofobismo está na base de projeto de lei do deputado federal Aldo Rebelo. Pela proposta, toda e qualquer palavra ou expressão em língua estrangeira usada no território nacional ou em repartição brasileira no exterior teria de ser substituída "por palavra ou expressão equivalente em língua portuguesa no prazo de noventa dias a contar do registro da ocorrência". Haveria umas poucas exceções.
A absorção de palavras estrangeiras é típica das línguas vivas e fruto do intercâmbio de bens, serviços, pessoas e ideias. O mesmo ocorreu na dominação estrangeira, como na introdução forçada do latim pelos romanos e de línguas europeias pelos impérios coloniais, incluindo o português no Brasil. Durante mais de dois séculos depois da conquista da Inglaterra pelos normandos (1066), o francês foi a língua oficial da corte.
O uso de estrangeirismo costuma enriquecer o idioma. Amplia o vocabulário. Contribui para simplificar a linguagem. Facilita a comunicação e a exposição de ideias. O inglês é um bom exemplo. Aberto à influência externa, ganhou inúmeras palavras durante as invasões romana (o nome da capital vem do latim Londinium) e normanda. E importou milhares do idioma de países que dominou e de muitos outros.
Apenas 20% a 30% das 80 000 palavras inglesas dicionarizadas pertencem às suas origens saxônicas. O francês, que teria contribuído com parcela semelhante, está muito presente nas artes e na culinária. O latim está nas ciências e o grego, na medicina (como também ocorre em outras línguas). Palavras espanholas, italianas, russas, indianas e outras integram o vocabulário inglês. O português chegou direto com bossa nova, cobra e piranha ou por adaptação com cashew (caju), manioc (mandioca) e mulatto (mulato).
O português se beneficiou de muitos vocábulos estrangeiros. Nem nos damos conta de que o francês nos trouxe ateliê, atachê, bufê, cinema, filé, perfume, sutiã. O inglês nos forneceu xampu, nomes de esportes (além do futebol, beisebol, voleibol, basquetebol, handebol, golfe, tênis), bife, buldogue, zíper, estresse. Se houvesse a Lei Requião, como seriam traduzidas a italiana pizza, a árabe esfirra e a espanhola paella?
A tecnologia continua a trazer estrangeirismos, que os jovens adotam rapidamente e os adultos, mais tarde. Mesmo quando há correspondentes em português, a preferência é importar e aportuguesar termos ingleses: deletar, atachar, inicializar. Deletar, que está no Aurélio, é mais um vocábulo de raiz latina (delere) no idioma de Shakespeare.
Em Portugal, o mouse do computador é rato mesmo. O que ganhariam os paranaenses se nas propagandas aparecesse rato ao lado de mouse? Nada. A Lei Requião é, pois, uma tremenda tolice. Ela não reforçará a soberania nacional. Significará apenas aumento de custos, perda de tempo e falta do que fazer.
Veja, 29 de julho 2009.
http://veja.abril.com.br/290709/ludopedio-no-gramado-p-107.shtml
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
DESCRIÇÃO
AS COISAS
As coisas têm peso, massa, volume, tamanho, tempo, forma, cor, posição, textura, duração, densidade, cheiro, valor, consistência, pro-fundi-dade, contorno, temperatura, função, aparência, preço, des-tino, idade, sentido. As coisas não têm paz.
http://www.kboing.com.br/arnaldo-antunes/1-82041/
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
O VERBO E A VERBA
Composição: Lenine / Lula Queiroga
Dolores, dólares...
O verbo saiu com os amigos
pra bater um papo na esquina,
A verba pagava as despesas,
porque ela era tudo o que ele tinha.
O verbo não soube explicar depois,
porque foi que a verba sumiu.
Nos braços de outras palavras
o verbo afogou sua mágoa, e dormiu.
Dolores e dólares.... rosebud
O verbo gastou saliva,
de tanto falar pro nada.
A verba era fria e calada,
mas ele sabia, lhe dava valor.
O verbo tentou se matar em silêncio,
e depois quando a verba chegou,
era tarde demais
o cádaver jazia,
a verba caiu aos seus pés a chorar
lágrimas de hipocrisia.
rosebud, dolores e dolares...
Link: http://www.vagalume.com.br/lenine/rosebud-o-verbo-e-a-verba.html#ixzz2La9P3LOL
Dolores, dólares...
O verbo saiu com os amigos
pra bater um papo na esquina,
A verba pagava as despesas,
porque ela era tudo o que ele tinha.
O verbo não soube explicar depois,
porque foi que a verba sumiu.
Nos braços de outras palavras
o verbo afogou sua mágoa, e dormiu.
Dolores e dólares.... rosebud
O verbo gastou saliva,
de tanto falar pro nada.
A verba era fria e calada,
mas ele sabia, lhe dava valor.
O verbo tentou se matar em silêncio,
e depois quando a verba chegou,
era tarde demais
o cádaver jazia,
a verba caiu aos seus pés a chorar
lágrimas de hipocrisia.
rosebud, dolores e dolares...
Link: http://www.vagalume.com.br/lenine/rosebud-o-verbo-e-a-verba.html#ixzz2La9P3LOL
Estrangeirismo
Yes, nós falamos English
Fernanda Scalzo - Revista Veja
João da Silva teve um dia estressante. Enfrentou um rush danado e chegou atrasado ao meeting com o sales manager da empresa onde trabalha. Antes do workshop com o expert em top marketing, foi servido um brunch, mas a comida era muito light para sua fome. À tarde, plugou-se na rede e conseguiu dar um download em alguns softwares que precisava para preparar seu paper do dia seguinte. Deletou uns tantos arquivos, pegou sua pick-up e seguiu para o point onde estava marcada uma happy hour. Mais tarde, no flat, ligou para o delivery e traçou um milk-shake e um hambúguer, enquanto assistia ao Non Stop na MTV. À noite, pôs sua camisa mais fashion, comprada num sale do shopping, e foi assistir a Shine no cinema. Voltou para o apart-hotel a tempo de ver um pedaço do seu talk-show peferido na TV.
Para o fictício João da Silva, assim como para muitos brasileiros, a língua portuguesa já não basta para descrever ou compreender o cotidiano. Cercado por anúncios de TV em inglês, músicas em inglês no rádio, cartazes (outdoors) em inglês nas ruas, expressões inglesas no trabalho, pratos em inglês nos cardápios, o brasileiro é quase um estrangeiro em sua própria terra. As grandes cadeias de alimentação espalham suas placas de fast food ou delivery pelas ruas das cidades. A publicidade adora usar palavras em inglês nos seus slogans, como se pode ver pelos casos da Nike (Just do it), do Citibank (The city never sleeps) ou da Wella (Perfectly you). Recentemente, uma conhecida marca de chocolates estampou: "Páscoa by Kopenhagen". Nos shoppings, as lojas de roupas não fazem liquidação, fazem sale. Nem dão descontos de 30% - são 30% off. Em São Paulo, uma placa esclarece que a churrascaria está open today (aberta hoje). Nem os títulos de filmes são mais traduzidos. Lançamentos recentes são Shine ou Crash. Para as distribuidoras, isso significa economia na impressão de cartazes e na criação de um título chamativo em português.
João da Silva teve um dia estressante. Enfrentou um rush danado e chegou atrasado ao meeting com o sales manager da empresa onde trabalha. Antes do workshop com o expert em top marketing, foi servido um brunch, mas a comida era muito light para sua fome. À tarde, plugou-se na rede e conseguiu dar um download em alguns softwares que precisava para preparar seu paper do dia seguinte. Deletou uns tantos arquivos, pegou sua pick-up e seguiu para o point onde estava marcada uma happy hour. Mais tarde, no flat, ligou para o delivery e traçou um milk-shake e um hambúguer, enquanto assistia ao Non Stop na MTV. À noite, pôs sua camisa mais fashion, comprada num sale do shopping, e foi assistir a Shine no cinema. Voltou para o apart-hotel a tempo de ver um pedaço do seu talk-show peferido na TV.
Para o fictício João da Silva, assim como para muitos brasileiros, a língua portuguesa já não basta para descrever ou compreender o cotidiano. Cercado por anúncios de TV em inglês, músicas em inglês no rádio, cartazes (outdoors) em inglês nas ruas, expressões inglesas no trabalho, pratos em inglês nos cardápios, o brasileiro é quase um estrangeiro em sua própria terra. As grandes cadeias de alimentação espalham suas placas de fast food ou delivery pelas ruas das cidades. A publicidade adora usar palavras em inglês nos seus slogans, como se pode ver pelos casos da Nike (Just do it), do Citibank (The city never sleeps) ou da Wella (Perfectly you). Recentemente, uma conhecida marca de chocolates estampou: "Páscoa by Kopenhagen". Nos shoppings, as lojas de roupas não fazem liquidação, fazem sale. Nem dão descontos de 30% - são 30% off. Em São Paulo, uma placa esclarece que a churrascaria está open today (aberta hoje). Nem os títulos de filmes são mais traduzidos. Lançamentos recentes são Shine ou Crash. Para as distribuidoras, isso significa economia na impressão de cartazes e na criação de um título chamativo em português.
"Yeeeeeeeeeeees" - Na atual edição do Dicionário Aurélio, contam-se 1 116 estrangeirismos, 373 deles anglicismos, ou seja, palavras importadas da língua inglesa (esse número dá conta apenas das palavras que entram em sua forma original, como know-how, por exemplo, mas não inclui palavras aportuguesadas como leiaute, de layout). A próxima edição, que está sendo preparada, terá um contingente ainda maior, impossível de calcular agora, em que já têm lugar reservado expressões como airbag e brunch. "Ainda não dá para quantificar, mas posso garantir que houve um aumento considerável nas palavras de origem inglesa", diz Paulo Geiger, editor da Nova Fronteira e da Lexicon, que publica o Aurélio. Em todo o país, não pára de aumentar a procura nas escolas que ensinam inglês desde o jardim de infância. A Escola Internacional de Curitiba cresceu de 140 alunos em 1995 para 240 neste ano, sendo a metade de brasileiros. Lá os alunos têm todas as aulas em inglês e tiram o diploma internacional de 2º grau, o que possibilita ingressar numa universidade americana. A Escola Americana de Belo Horizonte triplicou seu número de alunos nos últimos quatro anos. No Brasil, existem dezesseis escolas internacionais, que somam mais de 10 000 alunos. Antes, eram filhos de diplomatas e executivos de multinacionais que se matriculavam nesses estabelecimentos. Agora, são filhos de brasileiros - convencidos de que alfabetizar as crianças numa língua estrangeira é uma das melhores providências a tomar quanto a seu futuro. Também existem, hoje em dia, cerca de 4 000 escolas de inglês espalhadas pelo país. É um número estimado, já que muitas abrem e fecham suas portas sem ter chegado a se registrar. Os sindicatos que agrupam essas escolas no Estados estimam que, nos últimos cinco anos, o número de escolas de inglês quadruplicou.
Nenhum pai precisa ficar especialmente inquieto quando vê seu filho cerrar os punhos e gritar, numa hora de alegria, "Yeeeeeeeeeeees". Essa expansão da língua inglesa é um fenômeno conhecido: quanto maior o poder econômico de um país, maior a sua expansão linguística. O latim tornou-se a base da maioria das línguas europeias porque era falado pela grande potência da época, o Império Romano. Num período em que os Estados Unidos se firmam como a potência número 1 do planeta, é natural que seu idioma adquira essa força, não apenas nos países do Brasil, mas tanto nos países ricos da Europa como nos pobres na África. É em função disso que existem países como a Holanda, nações bilíngues onde a população fala a língua original - que só eles entendem - mas uma porção muito grande também fala inglês, presente no rádio e na televisão. Em algumas áreas, o domínio de inglês é ferramenta de trabalho. Nos negócios, por exemplo, um executivo não é ninguém se não domina o jargão, que é todo em inglês. É o equivalente a ser advogado e não saber latim no século passado. No Brasil, as palavras que vêm da tecnologia, da ciência ou da medicina, como Aids (veja quadro no final da reportagem), em geral são assimiladas antes de ganhar tradução. Por exemplo, software (programa), upgrade (expansão), e-mail (correio eletrônico). "O inglês é a língua mãe do computador", argumenta Osvaldo Barbosa, gerente de marketing da Microsoft Brasil. "Se cada país traduzisse seus comandos numa linguagem própria, haveria uma perda de tempo muito grande." (...) A maioria dos habitantes da colônia falava o tupi-guarani até o fim do século XVIII. Com a chegada da família real em 1808, proibiu-se a língua indígena e o português tornou-se obrigatório. A experiência ensina que uma língua pode acabar assim - suprimida, num país colonizado -, mas não em função de estrangeirismos.
Isso porque pesa a força econômica de cada língua mas também a tradição cultural de cada país. O sol nunca se punha sob o império da rainha Vitória, no século passado, mas a língua que mais se queria aprender era o francês, e não o inglês. Eram francesas as peças de teatro que faziam sucesso, os romancistas, os filósofos - foi a matriz francesa do iluminismo que marcou a cultura ocidental como nenhuma outra. Entre os séculos XII e XIII, a Inglaterra, invadida pelos normandos e pelos bárbaros, incorporou à sua língua inúmeros vocábulos do latim e do alemão. Muito mais rico é examinar os valores e a memória que desembarcam no país junto com as palavras estrangeiras. Para identificá-los, um recurso é observar campanhas publicitárias.
Exemplos curiosos - "Sale ou off passam mil significados que não estão em liquidação: adotam-se termos em inglês para passar a ideia de que o produto é sofisticado", diz o linguista Dino Preti, professor da PUC-SP. Isso não ocorre apenas nos cartazes de lojas. Os produtos, até os nacionais, abusam em seus rótulos de qualificativos como plus, light, vip, master, diet, clean, dando a entender que também são para um público de maior poder aquisitivo. Em determinados lugares, sem conhecimentos básicos de inglês, ficou difícil fazer compras. Está embutida no uso de anglicismos uma ideologia de definição de uma camada que se enxerga no topo do país, acima dele, na verdade. "No Brasil, usa-se a língua estrangeira para criar jogos de inferioridade", explica o linguista americano Eric Mitchell Sabinson, que ensina tradução no Departamento de Linguística Aplicada da Unicamp. O que os dois professores querem dizer é que o inglês serve, em alguns casos, para demarcar uma diferença social - como se apreende naquelas tabelas que falam o que é in e o que é out.
(...)
Nenhum pai precisa ficar especialmente inquieto quando vê seu filho cerrar os punhos e gritar, numa hora de alegria, "Yeeeeeeeeeeees". Essa expansão da língua inglesa é um fenômeno conhecido: quanto maior o poder econômico de um país, maior a sua expansão linguística. O latim tornou-se a base da maioria das línguas europeias porque era falado pela grande potência da época, o Império Romano. Num período em que os Estados Unidos se firmam como a potência número 1 do planeta, é natural que seu idioma adquira essa força, não apenas nos países do Brasil, mas tanto nos países ricos da Europa como nos pobres na África. É em função disso que existem países como a Holanda, nações bilíngues onde a população fala a língua original - que só eles entendem - mas uma porção muito grande também fala inglês, presente no rádio e na televisão. Em algumas áreas, o domínio de inglês é ferramenta de trabalho. Nos negócios, por exemplo, um executivo não é ninguém se não domina o jargão, que é todo em inglês. É o equivalente a ser advogado e não saber latim no século passado. No Brasil, as palavras que vêm da tecnologia, da ciência ou da medicina, como Aids (veja quadro no final da reportagem), em geral são assimiladas antes de ganhar tradução. Por exemplo, software (programa), upgrade (expansão), e-mail (correio eletrônico). "O inglês é a língua mãe do computador", argumenta Osvaldo Barbosa, gerente de marketing da Microsoft Brasil. "Se cada país traduzisse seus comandos numa linguagem própria, haveria uma perda de tempo muito grande." (...) A maioria dos habitantes da colônia falava o tupi-guarani até o fim do século XVIII. Com a chegada da família real em 1808, proibiu-se a língua indígena e o português tornou-se obrigatório. A experiência ensina que uma língua pode acabar assim - suprimida, num país colonizado -, mas não em função de estrangeirismos.
Isso porque pesa a força econômica de cada língua mas também a tradição cultural de cada país. O sol nunca se punha sob o império da rainha Vitória, no século passado, mas a língua que mais se queria aprender era o francês, e não o inglês. Eram francesas as peças de teatro que faziam sucesso, os romancistas, os filósofos - foi a matriz francesa do iluminismo que marcou a cultura ocidental como nenhuma outra. Entre os séculos XII e XIII, a Inglaterra, invadida pelos normandos e pelos bárbaros, incorporou à sua língua inúmeros vocábulos do latim e do alemão. Muito mais rico é examinar os valores e a memória que desembarcam no país junto com as palavras estrangeiras. Para identificá-los, um recurso é observar campanhas publicitárias.
Exemplos curiosos - "Sale ou off passam mil significados que não estão em liquidação: adotam-se termos em inglês para passar a ideia de que o produto é sofisticado", diz o linguista Dino Preti, professor da PUC-SP. Isso não ocorre apenas nos cartazes de lojas. Os produtos, até os nacionais, abusam em seus rótulos de qualificativos como plus, light, vip, master, diet, clean, dando a entender que também são para um público de maior poder aquisitivo. Em determinados lugares, sem conhecimentos básicos de inglês, ficou difícil fazer compras. Está embutida no uso de anglicismos uma ideologia de definição de uma camada que se enxerga no topo do país, acima dele, na verdade. "No Brasil, usa-se a língua estrangeira para criar jogos de inferioridade", explica o linguista americano Eric Mitchell Sabinson, que ensina tradução no Departamento de Linguística Aplicada da Unicamp. O que os dois professores querem dizer é que o inglês serve, em alguns casos, para demarcar uma diferença social - como se apreende naquelas tabelas que falam o que é in e o que é out.
(...)
Mesmo em livrarias especializadas em importados, como a Cultura, de São Paulo, o volume de vendas de livros em inglês gira em torno de 20%. "O leitor médio brasileiro não está habilitado a ler um romance em inglês, só lê livros de aprendizado da língua, nos quais o vocabulário limita-se entre 500 e 800 palavras, diz Pedro Hertz, diretor da livraria. Na novela A Indomada, exibida no horário nobre da Globo, a direção da emissora teve de pedir aos autores que moderassem o uso do idioma porque as pessoas não estavam entendendo a trama. A Indomada estava começando a ser vítima da própria mania que pretende denunciar. "A novela é uma sátira, faz crítica social em cima da mania do brasileiro de usar palavras americanas. O brasileiro é deslumbrado com tudo que vem de fora", diz Ricardo Linhares, que assina a autoria de A Indomada junto com Aguinaldo Silva. Analisar as letras das bandas brasileiras de heavy metal, todas em inglês, todas sem pé nem cabeça, mostra também que é falsa a ideia de que o jovem brasileiro domina o idioma apenas porque convive, desde a infância, com a música americana.
Por que a Sida não emplacou
Por que a palavra Aids (Acquired Imuno-deficiency Syndrome) vingou no Brasil em vez de sua tradução Sida, usada em todos os outros países de língua latina? Segundo Wildney Feres Contrera, vice-presidente do Grupo de Apoio à Prevenção à Aids, Gapa, ao começar a chamar a doença de Sida vieram junto as piadas. "As pessoas diziam: 'Ele está com a sidinha' ou 'A sidinha pegou ele', com um tom pejorativo", lembra. Além do problema com o apelido Cida, muito comum no Brasil - o que poderia ter criado uma situação semelhante à do Bráulio, uma década depois -, a sigla traduzida remetia também à santa padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. Para não associar a doença, que quando apareceu no começo dos anos 80 era completamente misteriosa e foi até chamada de "câncer gay", com personagens nacionais, os médicos e a imprensa acabaram optando pela sigla americana, que não remetia a nada conhecido. "Mas é apenas uma hipótese", diz Wildney. "Não se tem certeza se foi isso mesmo que ocorreu."
Realmente, essa explicação parece mirabolante demais para ser verdadeira. A maioria dos médicos acha que o brasileiro passou a falar Aids e não Sida numa atitude coerente com o costume de falar hotdog e não cachorro-quente, mouse e não camundongo, e assim por diante. Para o Ministério da Saúde, o termo Aids vingou porque foi incorporado imediatamente no Brasil pelos médicos. Foram eles que, em entrevistas, disseminaram a palavra na imprensa, que por sua vez a espalhou no país. Desde as primeiras reportagens na imprensa escrita sobre a síndrome, que datam de 1983, aparece o nome em inglês, associado a outras designações como "doença dos homossexuais" - já que, na época, não se sabia direito o que era. Ou seja: é, provavelmente, mais um exemplo dos interessados no transplante direto de palavras inglesas, sem a preocupação de traduzi-las.
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Fonte: Revista Veja
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