terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

música VOU TIRAR DO DICIONÁRIO A PALAVRA VOCÊ!

           

Zélia Duncan


Eu vou tirar do dicionário
A palavra você
Vou trocar-lá em miúdos
Mudar meu vocabulário
e no seu lugar
vou colocar outro absurdo
Eu vou tirar suas impressões digitais
da minha pele
Tirar seu cheiro
dos meus lençóis
O seu rosto do meu gosto
Eu vou tirar você de letra
nem que tenha que inventar
outra gramática
Eu vou tirar você de mim
Assim que descobrir
com quantos "nãos" se faz um sim
Eu vou tirar o sentimento
do meu pensamento
sua imagem e semelhança
Vou parar o movimento
a qualquer momento
Procurar outra lembrança
Eu vou tirar, vou limar de vez sua voz
dos meus ouvidos
Eu vou tirar você e eu de nós
o dito pelo não tido
Eu vou tirar você de letra
nem que tenha que inventar
outra gramática
Eu vou tirar você de mim
Assim que descobrir
com quantos "nãos" se faz um sim
"Tudo que você disser
deve fazer bem
Nada que você comer
deve fazer mal"
"Eu quero as mulheres
que dizem sim
http://letras.mus.br/zelia-duncan/120057/

música VERBOS SUJEITOS

Verbos Sujeitos

Zélia Duncan


Olhos pra te rever
Boca pra te provar
Noites pra te perder
Mapas pra te encontrar
Fotos pra te reter
Luas pra te esperar
Voz pra te convencer
Ruas pra te avistar
Calma pra te entender
Verbos pra te acionar
Luz pra te esclarecer
Sonhos pra te acordar
Taras pra te morder
Cartas pra te selar
Sexo pra estremecer
Contos pra te encantar
Silêncio pra te comover...
Música pra te alcançar...
Refrão pra enternecer...
E agora só falta você
Meus verbos sujeitos ao seu modo de me acionar
Meus verbos em aberto pra você me conjugar
Quero...vou...fui...não vi...voltei...
Mas sei que um dia de novo eu irei
http://letras.mus.br/zelia-duncan/43892/

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

MOTEL OU HOTEL?

(M?) (H?)otel

A pergunta que me faço sempre que passo pelo luminoso, há anos, é se estamos diante de um M disfarçado de H ou de um H que finge ser M. Embora as duas hipóteses encontrem argumentos, tendo a me inclinar em direção à primeira: trata-se de um motel envergonhado.

O estabelecimento fica quase na Raposo Tavares -e é esse "quase", acredito, que explica sua indecisão. Logo ali, menos de três quilômetros adiante, os Ms já não terão pudor de exibir seus rubros decotes à beira da estrada: Motel L'Amour, Motel Belle, Sedutti e Fox Trot Motel. Uma estrada, contudo, é uma estrada, uma cidade é uma cidade. O ambíguo luminoso brilha entre uma imobiliária e uma casa de família: suas piscadelas vão para os trabalhadores no ponto de ônibus, para os estudantes da USP, para a secretária que, a caminho do metrô, compra uns chocolates do ambulante. É melhor que as lâmpadas brancas não esclareçam totalmente os contornos da moldura vermelha: assim, só quem sabe o que busca verá, no sorriso discreto do H, o púbis desnudo do M.

Ou não -como diria o poeta. Afinal, por que teria de se esconder, um motel? Um motel não é um bordel. Ninguém se choca com sua existência. Não atrai "gente diferenciada". Associações de bairro não tentam evitar sua construção. O Feliciano, a bispa Sônia ou o papa, até onde eu sei, jamais fizeram dele o alvo de seus recalques. Será que, em vez de um motel envergonhado, estamos diante de um hotel atrevido? Um pequeno hotel cujo peso das contas a pagar, todo mês, acabou por flexibilizar o austero H, levando-o a ampliar seu público? Se o caminhoneiro cansado quiser dormir algumas horas antes de seguir para Sorocaba, encontrará uma cama limpa. Se o casal afobado não aguentar chegar à Raposo, terá uma cama redonda.

Motel acanhado ou hotel saidinho, a mesma dúvida me traz: como lidará a clientela com tal indecisão gráfica e mercadológica? Convenhamos, a única concordância entre quem busca o sono e quem procura o sexo é sobre a conveniência de um colchão: afora isso, tudo os separa. Uns aspiram ao silêncio decorativo, no qual espelharão a tranquilidade domiciliar, os outros desejam exatamente o contrário, o estímulo excêntrico que os faça esquecer do tédio do lar.

Tentar unir roncos e gemidos parece uma receita para o fracasso e, no entanto, o negócio resiste, há anos. Ocorre-me agora que ele talvez perdure não apesar da ambiguidade, mas justamente por causa dela. As lâmpadas brancas, sem esclarecer totalmente os contornos da moldura vermelha, não são a senha para quem sabe o que busca, mas um convite aos trabalhadores no ponto de ônibus, à secretária comprando chocolates, ao ambulante, aos estudantes da USP, ao caminhoneiro a caminho de Sorocaba. Quem sabe se as promessas de aventura do motel, somadas ao lastro de segurança de um hotel, não trazem vez por outra certas ideias a esses incautos pedestres que, atraídos pelo sorriso discreto do H, acabam seguindo a seta do M? Talvez as duas letras, mais do que divergentes, sejam consoantes.

fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/2013/08/1331654-mhotel.shtml

sábado, 7 de setembro de 2013

PROPAGANDA SEDEX sobre Sinônimos( ou metonímia, perifrase?)


SEDEX lança campanha bem-humorada sobre sinônimos

Publicado em 22 de julho de 2013 por Correios

Sinônimos – essa é a nova campanha da marca SEDEX, lançada neste domingo (21). A partir de uma brincadeira com a semântica das palavras, o vídeo mostra a percepção da população brasileira em relação a esse serviço dos Correios.

A ideia do filme é brincar com os nomes de produtos conhecidos pela população, mostrando como algumas marcas são tão admiradas que se tornam sinônimo de toda a categoria. O jogo de palavras é feito com o SEDEX, reforçando a liderança em um mercado concorrencial e a qualidade da marca.

A campanha ficará no ar nos próximos meses, com divulgação em televisão aberta e fechada, rádio, revista, jornal, mídia exterior e internet.


terça-feira, 3 de setembro de 2013

Sobre o ato de criação literária


 
 
            (1) Não é fácil lembrar-me de como e por que escrevi um conto ou um romance. Depois que se despegam de mim também eu os estranho. Não se trata de “transe”, mas concentração no escrever parece tirar a consciência do que não tenha sido o  escrever propriamente dito. (2) Alguma coisa, porém, posso tentar reconstruir, se é que é importa, e se responde ao que me foi perguntado.
            (3) O que me lembro do conto “Feliz Aniversário”, por exemplo, é de uma festa que não foi deferente de outras de aniversário;mas aquela que era um dia pesado de verão, e acho até que nem pus a idéia de verão no conto. (4) Tive uma “impressão”, de onde resultaram algumas linhas, a história inteira nasceu, com uma rapidez de quem estivesse transcrevendo cena já vista – e no entanto nada do que escrevi aconteceu naquela ou em outra festa. (5) Muito tempo depois um amigo perguntou-me de quem era aquela avó. Respondi que era a avó dos outros. ( 6) Dois dias depois a verdadeira resposta me veio espontânea,  com surpresa: descobri que aquela avó era minha mesma e dela era só conhecera, em criança, um retrato, nada mais.
 
LISPECTOR,Clarice. Explicação inútil. In: ____ Para não esquecer. São Paulo: Ática, 1984.