Este blog tem como objetivo organizar textos que podem ser utilizados como materiais de discussão nas aulas de Língua Portuguesa ou simplesmente promover reflexões sobre a língua. Vá para o link SUMÁRIO para ter acesso à relação de temas e de publicações.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
QUANDO O ERRADO ESTÁ CERTO
Muita gente torce o nariz quando um chatola, como eu, começa a reclamar dos erros de português que se cometem nos jornais e na televisão. Desses, muitos dos que os cometem são profissionais, mas estão pouco ligando para o que consideramos escrever e falar errado.
Sabe-se que, para a maioria dos linguistas,
não existe isso de falar errado: todo o mundo fala certo. Admitem existir uma
"norma culta", que obedece às regras gramaticais, mas violá-las não é
propriamente errar. Ouvi de um deles que está tão certo dizer "pobrema" como
"problema". Obtuso como sou, tenho dificuldade de entender por que eles mesmos
vivem escrevendo livros e colunas em jornais, ensinando como se deve escrever.
Ora, se não existe falar errado, por que ensinar?
Não deve o leitor concluir daí que sou
aquele morrinha que vive catando os deslizes de cada um, mesmo porque não posso
me considerar um grande conhecedor da língua. Gosto dela, prezo-a ou, melhor
dizendo, considero-a uma das extraordinárias criações do gênio humano. Não é
maravilhoso imaginar que, muito antes de surgirem os gramáticos, nossos
ancestrais já falavam obedecendo às normas que tornaram o idioma meio de
comunicação entre as pessoas e de invenção do nosso mundo cultural?
Pense bem nesta maravilha: a palavra "este"
indica algo que está perto de mim; "esse", o que está perto de você; e "aquele",
o que está longe de nós dois. Eis a linguagem expressando as relações reais do
sujeito e das coisas do mundo. Não obstante, todos os locutores de rádio e
televisão, como a maioria dos jornalistas, referindo-se ao que está perto de si,
usam "esse" em lugar de "este". E isso é hoje tão frequente que já nem se
repara.
Ninguém vai morrer por isso, mas não deixa
de ser preocupante observar as pessoas deformarem e empobrecerem a língua,
usando, por exemplo, "sobre" como regência de quase todos os verbos.
Em vez de "comentou os fatos" dizem
"comentou sobre os fatos"; em vez de "quando falou do problema", dizem "quando
falou sobre o problema"; em vez de "alertado do ataque", dizem "alertado sobre o
ataque", e por aí vão.
Em certas frases, o uso de "sobre" chega ao
limite do desatino: "o deputado aguarda o desmentido sobre a denúncia", quando
seria muito mais simples e elegante dizer "aguarda o desmentido da denúncia". Vá
você, agora, explicar como surgiu essa mania do sobre, que espero seja apenas
uma mania, como outras que surgiram e se foram.
Lembram-se da época em que todos usavam a
expressão "a nível de"? Servia para qualquer coisa, como ouvi um entrevistado
afirmar que, "a nível de ração para porcos, o melhor seria...". Felizmente, essa
mania passou, o que me faz crer que a língua termina por excluir de si as
excrescências que nela se introduzem. Mas parece que nem sempre, porque, às
vezes, o mau uso se generaliza e até mesmo se oficializa.
Existe coisa mais descabida do que chamar de
"sambódromo" uma passarela para desfile de escolas de samba? Em grego, "-dromo"
quer dizer "ação de correr, lugar de corrida", daí as palavras autódromo e
hipódromo. É certo que, às vezes, durante o desfile, a escola se atrasa e é
obrigada a correr para não perder pontos, mas não se desloca com a velocidade de
um cavalo ou de um carro de Fórmula 1.
Muitas vezes, à irreverência junta-se a
ignorância, a pouca leitura dos bons escritores. Não é que tenhamos de escrever
como escrevia Camões, mas o conhecimento do idioma, em seus diferentes momentos
históricos e em suas mudanças, ajuda-nos a preservar a língua no que tem de
essencial como também a transformá-la sem lhe trair a natureza. É essa
ignorância que leva alguns redatores de televisão a substituir "risco de vida"
por "risco de morte", achando que esta é a expressão correta. Ganha-se em
obviedade e perde-se em elegância.
Já mencionei aqui, noutra ocasião, a tal lei
da termodinâmica, segundo a qual os sistemas tendem à desordem. Sendo a língua
um sistema, está sujeita a desorganizar-se, como o atestam os exemplos citados,
tanto mais hoje em dia, quando a TV induz milhões de pessoas a falar errado.
Essa mesma TV que poderia se tornar um instrumento decisivo na luta contra a
entropia. Ou será que escrever certo é elitismo?
Ferreira Gullar, artigo publicado na
Folha Ilustrada, do Jornal Folha de São Paulo, de 20 de junho de
2010
ALGUÉM FALA ERRADO?
Alguém fala errado?
FERREIRA GULLAR
folha de s paulo (25/09/2005)
Sei muito bem que, de acordo com a lingüística moderna, não existem o certo e o errado no uso do idioma nacional, ou melhor, não existe o errado, o que significa que tudo está certo e que minha antiga professora de português, que me ensinou a fazer análise lógica e gramatical das proposições em língua portuguesa, era uma louca, uma vez que a língua não tem lógica como ela supunha e a gramática é de fato um instrumento de repressão; perdeu seu tempo dona Rosinha ensinando-me que o verbo concorda com o sujeito, e os adjetivos com os substantivos, como também concordam com estes os artigos, ou seja, que não se deve dizer dois dúzias de ovos, uma vez que dúzia é palavra feminina, donde ter que dizer "duas dúzias de ovos", o que era, como sei agora, um ensinamento errôneo ou, no máximo, correto apenas naquela época, pois hoje ouço na televisão e leio nos jornais "as 6 milhões de pessoas", construção indiscutivelmente correta hoje, quando os artigos não têm mais que concordar com os substantivos e tampouco com o verbo, como me ensinara ela, pois me corrigia quando eu dizia "ele foi um dos que fez barulho", afirmando que eu deveria dizer "um dos que fizeram barulho", e me explicava que era como se dissesse "foi um dos três que fizeram barulho", explicação antiquada, do mesmo modo que aquela outra referente à regência dos verbos e que eu, burróide, entendi como certo quando, na verdade, o certo não é, por exemplo, dizer "a comida de que ela necessita" ou "o problema de que falou o presidente", e, sim, "o problema que falou o presidente", frase que, no meu antiquado entendimento, resulta estranha, pois parece dizer não que o presidente falou do problema, mas que o problema falou do presidente, donde se conclui que sou realmente um sujeito maluco, que já está até ouvindo "vozes" e, além de maluco, fora de moda, porque não se conforma com o fato de terem praticamente eliminado de nossa língua as palavras "este" e "esta", que foram substituídas por "esse" e "essa", pois sem nenhuma dúvida é uma tolice querer que o locutor da televisão, referindo-se à noite em que fala, diga "no programa desta noite" em lugar de "no programa dessa noite", que, dentro do critério de que o errado é certo, está certíssimo, ao contrário do que exige esta minha birra, culpa da professora Rosinha, por ter insistido em nos convencer de que "este" designa algo que está perto de mim, "esse", algo que está perto de você e "aquele", o que está longe dos dois, e ainda a minha teimosia em achar que essas palavras correspondem a situações reais da vida, não são meras invenções de gramáticos; e, de tão sectário que sou nesta mania de preservar a língua, não suporto ouvir a expressão "isto não significa dizer" em vez de "isto não quer dizer", que é o correto, ou era, além de expressão legítima, enquanto a outra é um anglicismo, mas que, por isso mesmo, há quem considere ainda mais correta, porque estamos na época da globalização, o que torna mais bobo ainda implicar com estrangeirismos, como aquele meu amigo que fica irritado ao ler nos jornais que "a reunião da Câmara foi postergada para segunda-feira", em vez de "adiada", como sempre se disse e que facilita o entendimento da maioria das pessoas, já que nem todos os brasileiros amargaram o exílio em países de língua espanhola. Mas já quase admito ser muita pretensão teimar em dizer "o governador cogita de enviar à Câmara um novo projeto de lei", pois isso de que o verbo "cogitar" rege a preposição "de" também é bobagem, coisa de gente pretensiosa que precisa se impor às outras falando arrogantemente "correto", como se houvesse modo de falar certo ou errado, de falar correto, pois a verdade é que tal pretensão oculta um preconceito de classe, uma discriminação contra aqueles que não tiveram oportunidade de estudar e, por essa razão, não podem falar como os que usufruíram do privilégio burguês, ou pequeno-burguês, de estudar gramática, o que vem acentuar a injustiça social. Como se não bastasse serem aqueles pobres discriminados no trabalho e no conforto, ainda se acrescenta essa discriminação, acusando-os de falarem mal a língua, da qual são eles de fato os criadores e que foi apropriada pelos ricos e poderosos que agora se consideram donos dela, como de tudo o mais que existe neste mundo, pois eles de fato não toleram a hipótese de que todas as pessoas sejam iguais e que todas elas falem corretamente ainda que gramáticos elitistas insistam em dizer que falam errado só porque não falam segundo as normas da classe dominante, que, além de impedir os pobres de estudar, acusam-nos de serem ignorantes, atitude de fato inaceitável, pois sabemos que todas as pessoas são igualmente inteligentes e talentosas, portanto capazes de criar obras de arte geniais, de conceber teorias iguais às que conceberam Galileu e Einstein, e só não o fazem porque são deliberadamente impedidas de dar vazão a seu gênio criador; e também neste caso se comete a injustiça de consagrar como gênios alguns homens privilegiados e não atribuir qualquer valor aos milhões, perdão, às milhões de pessoas tidas como comuns, e só não consigo entender é por que os lingüistas que defendem tais idéias continuam a escrever corretamente tal como exigia minha professora do colégio São Luís de Gonzaga, naqueles distantes anos da década de 1940... Diante disto, não está mais aqui quem falou.
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
Variações linguísticas: NINGUÉM FALA COMO LIVRO
Ninguém fala como livro
Desde criança vivemos uma vigilância sobre o uso do idioma.
Evanildo Bechara
Um dos cuidados fundamentais da educação lingüística, a "correção da linguagem" começa nos primeiros ensaios da fala da criança em contato com seus familiares, que são, em geral, os primeiros professores de língua que ela conhece, correção que se prolonga pelo resto da vida. Entre esses professores, está, sem sombra de dúvida, em lugar de relevo, a mãe, razão por que - talvez - se diga da língua nativa "língua materna" (e não "língua paterna"), pois com ela a criança mantém, nos anos iniciais da existência, contato mais amiudado e profundo.
É nessa fase que surgem as primeiras observações em busca de um padrão lingüístico "normal", isto é, que respeite a normalidade do uso vigente no seio da família. As correções iniciais incidem na articulação dos fonemas da língua, especialmente aquelas articulações que a criança domina por último (a troca do r por l); são ainda dessa fase os avisos quanto à troca de posição de fonemas dentro da palavra (cardeneta por caderneta), a certos grupos consonantais menos comuns no dia-a-dia (biciqueta por bicicleta), a certos desvios de acentuação tônica (gratuíto por gratuito, récem por recém).
Como, por essa quadra da vida e mais adiante, a criança domina o sistema da língua, isto é, o "regular", mas não a norma, isto é, o "normal" no uso (nem sempre há coincidência entre o sistema e a norma da língua), vêm as correções nas formas nominal e verbal do tipo "não é padrinha, e sim madrinha"(a criança já intuíra que na oposição -o final/-a final faz o idioma a oposição masculino/feminino, como em tio/tia, primo/prima etc.); "não é fazi e sim fiz"; "não é fazeu, e sim fez"(ao peso de flexões como temi, perdi e temeu, perdeu); "não é trazi, e sim trouxe", "não é trazeu, e sim trouxe" etc.
Ao entrar para as séries iniciais da escola e já alfabetizada, a criança deve ter aprendido a evitar a maioria desses enganos de língua, se a ação da família foi efetiva e constituiu um modelo eficaz ao bom desempenho lingüístico do nosso jovem. Nos bancos escolares, começa a conhecer uma nova modalidade de língua; a escrita, que passa a conviver com a até então exclusiva língua falada de sua bagagem idiomática.
O risco do padrão
À medida que a escola vai oferecendo ao nosso jovem as páginas de histórias, poesias, crônicas, alguns enganos de ordem lingüística e pedagógica se vão fixando em sala de aula de língua portuguesa, enganos de conseqüências perigosas e funestas devido ao trabalho e ação de professores mal informados e à aprendizagem de alunos mal orientados.
O primeiro engano de natureza lingüística é a suposição de que a língua portuguesa desse momento é uma realidade homogênea e unitária, e a sua única e legítima expressão é a língua padrão refletida e concretizada nos textos escritos veiculados pela escola entre os alunos. Esse ledo engano sinonimiza a língua portuguesa com a língua escrita, com a língua literária, com a língua padrão ou standard, de modo que português só é o que está na gramática e no dicionário, abonado pelo prestígio dos bons escritores. Fora dessa realidade, dizem os professores mal informados, "isso não pode ser dito" ou, o que é mais grave, "isso não é português" (é o caso de perguntar o aluno: "então que língua é essa, se não é português o que eu digo?").
Ora, é um lamentável engano de conhecimento de lingüística, isto é, de ciência das línguas, esse de imaginar uma língua histórica - como o português, o inglês, o francês etc. - uma realidade homogênea e unitária. Uma língua histórica é um conjunto de idiomas mais ou menos semelhantes e mais ou menos distintos, ainda que considerados num só momento de seu percurso histórico, por exemplo, o português dos nossos dias. Há nessa língua histórica diferenças regionais, os chamados dialetos, como o português do Brasil, o de Portugal, o da África. Mesmo no Brasil ou em Portugal ou na África, persistem as diferenças geográficas: o português do Norte do Brasil, o português sulista. Numa determinada região, por exemplo, no português do Recife, notam-se diferenças nos estratos sociais desse falar regional, os chamados dialetos sociais, como a variedade da classe culta, a da classe semiculta e a dos analfabetos, a língua popular.
Existem ainda as variedades estilísticas, isto é, as que existem entre a língua escrita - em geral cuidada, tensa - e a língua falada, espontânea; entre a língua "de uso" e a língua literária; entre a língua corrente e a língua técnica, inclusive a burocrática; entre a língua da prosa e da poesia.
Variáveis das variantes
Todas essas variedades regionais, sociais e estilísticas são igualmente válidas e importantes do ponto de vista lingüístico, cientificamente falando. Está claro que cada uma é adequada ao tipo de cada falante e a cada circunstância da vida social, do nosso compromisso com o contexto e com a natureza do nosso ouvinte ou destinatário. Se erro existe, é querer usar de uma variedade quando a norma social exige outra variedade mais adequada. Por isso, está equivocada a pessoa que pensa que saber português é só saber falar empolado, difícil ou, como também se diz, falar como um livro. É o mesmo engano da pessoa que pensa que se vestir bem é vestir-se de uma só maneira, quer vá ao casamento, ao trabalho, ao cinema, à praia ou à feira. Em algum ou alguns desses momentos estará cometendo uma gafe no falar ou no vestir.
Muita gente pensa que "se aproxima" do seu ouvinte, que "o conquista" mais facilmente, falando ou escrevendo numa variedade de língua menos exigente e mais corriqueira. É como se falasse para adultos com a modalidade própria da que se usa com as crianças, porque os considera como filhos.
Falar ou escrever para outrem, ainda que de condição cultural abaixo da sua, exige dignidade, que já é uma faceta do respeito que se deve ao semelhante. Um repórter bem vestido que fale dos Estados Unidos ou da França ao telespectador brasileiro com "vi ele" ou "encontrou ela" é como se passasse, por antecipação, um atestado de ignorância ao público, por achar que "vi-o" ou "encontrou-a" são formas de dizer incompatíveis com a pouca dignidade cultural ou o baixo grau de escolaridade terceiro-mundista. Daí, talvez, preferir chamar os telespectadores de "galera", esquecendo-se de que, quando a Orquestra Sinfônica se apresenta na Quinta da Boa Vista, a "galera humilde" vibra com os clássicos e aplaude Carlos Gomes, Chopin ou Mozart. Perde o repórter que assim procede a oportunidade de instruir os que sabem menos do que ele e esperam mais da TV brasileira.
Erro pedagógico
Tão grave quanto o desconhecimento que vimos apontando é o erro pedagógico. Partindo da idéia de que essa língua padrão ou standard é uma imposição da "classe dominante", da "língua do poder", e de que o aluno já se comunica muito bem por meio da variedade viva que trouxe de casa e vigora e revigora na rua, nas praças e até em certo tipo de literatura de crônicas do quotidiano, de fatos do dia-a-dia, com intuitos de lazer e com finais humorísticos, há professores mal informados e pedagogos engajados que defendem que a variedade a ser cultivada e cultuada na escola é essa língua "natural" falada, viva e espontânea, sob a bandeira tão aplaudida pelos jovens que não querem esforçar-se na sua risonha e brincalhona passagem pelos bancos escolares, onde a exigente e suada aprendizagem não ocupa o lugar privilegiado da merenda escolar e das brincadeiras no recreio. É pedagogia de aprender brincando. Em tudo isso há, naturalmente, honrosas exceções que, pelo seu minguado número, justificam a regra
É nessa fase que surgem as primeiras observações em busca de um padrão lingüístico "normal", isto é, que respeite a normalidade do uso vigente no seio da família. As correções iniciais incidem na articulação dos fonemas da língua, especialmente aquelas articulações que a criança domina por último (a troca do r por l); são ainda dessa fase os avisos quanto à troca de posição de fonemas dentro da palavra (cardeneta por caderneta), a certos grupos consonantais menos comuns no dia-a-dia (biciqueta por bicicleta), a certos desvios de acentuação tônica (gratuíto por gratuito, récem por recém).
Como, por essa quadra da vida e mais adiante, a criança domina o sistema da língua, isto é, o "regular", mas não a norma, isto é, o "normal" no uso (nem sempre há coincidência entre o sistema e a norma da língua), vêm as correções nas formas nominal e verbal do tipo "não é padrinha, e sim madrinha"(a criança já intuíra que na oposição -o final/-a final faz o idioma a oposição masculino/feminino, como em tio/tia, primo/prima etc.); "não é fazi e sim fiz"; "não é fazeu, e sim fez"(ao peso de flexões como temi, perdi e temeu, perdeu); "não é trazi, e sim trouxe", "não é trazeu, e sim trouxe" etc.
Ao entrar para as séries iniciais da escola e já alfabetizada, a criança deve ter aprendido a evitar a maioria desses enganos de língua, se a ação da família foi efetiva e constituiu um modelo eficaz ao bom desempenho lingüístico do nosso jovem. Nos bancos escolares, começa a conhecer uma nova modalidade de língua; a escrita, que passa a conviver com a até então exclusiva língua falada de sua bagagem idiomática.
O risco do padrão
À medida que a escola vai oferecendo ao nosso jovem as páginas de histórias, poesias, crônicas, alguns enganos de ordem lingüística e pedagógica se vão fixando em sala de aula de língua portuguesa, enganos de conseqüências perigosas e funestas devido ao trabalho e ação de professores mal informados e à aprendizagem de alunos mal orientados.
O primeiro engano de natureza lingüística é a suposição de que a língua portuguesa desse momento é uma realidade homogênea e unitária, e a sua única e legítima expressão é a língua padrão refletida e concretizada nos textos escritos veiculados pela escola entre os alunos. Esse ledo engano sinonimiza a língua portuguesa com a língua escrita, com a língua literária, com a língua padrão ou standard, de modo que português só é o que está na gramática e no dicionário, abonado pelo prestígio dos bons escritores. Fora dessa realidade, dizem os professores mal informados, "isso não pode ser dito" ou, o que é mais grave, "isso não é português" (é o caso de perguntar o aluno: "então que língua é essa, se não é português o que eu digo?").
Ora, é um lamentável engano de conhecimento de lingüística, isto é, de ciência das línguas, esse de imaginar uma língua histórica - como o português, o inglês, o francês etc. - uma realidade homogênea e unitária. Uma língua histórica é um conjunto de idiomas mais ou menos semelhantes e mais ou menos distintos, ainda que considerados num só momento de seu percurso histórico, por exemplo, o português dos nossos dias. Há nessa língua histórica diferenças regionais, os chamados dialetos, como o português do Brasil, o de Portugal, o da África. Mesmo no Brasil ou em Portugal ou na África, persistem as diferenças geográficas: o português do Norte do Brasil, o português sulista. Numa determinada região, por exemplo, no português do Recife, notam-se diferenças nos estratos sociais desse falar regional, os chamados dialetos sociais, como a variedade da classe culta, a da classe semiculta e a dos analfabetos, a língua popular.
Existem ainda as variedades estilísticas, isto é, as que existem entre a língua escrita - em geral cuidada, tensa - e a língua falada, espontânea; entre a língua "de uso" e a língua literária; entre a língua corrente e a língua técnica, inclusive a burocrática; entre a língua da prosa e da poesia.
Variáveis das variantes
Todas essas variedades regionais, sociais e estilísticas são igualmente válidas e importantes do ponto de vista lingüístico, cientificamente falando. Está claro que cada uma é adequada ao tipo de cada falante e a cada circunstância da vida social, do nosso compromisso com o contexto e com a natureza do nosso ouvinte ou destinatário. Se erro existe, é querer usar de uma variedade quando a norma social exige outra variedade mais adequada. Por isso, está equivocada a pessoa que pensa que saber português é só saber falar empolado, difícil ou, como também se diz, falar como um livro. É o mesmo engano da pessoa que pensa que se vestir bem é vestir-se de uma só maneira, quer vá ao casamento, ao trabalho, ao cinema, à praia ou à feira. Em algum ou alguns desses momentos estará cometendo uma gafe no falar ou no vestir.
Muita gente pensa que "se aproxima" do seu ouvinte, que "o conquista" mais facilmente, falando ou escrevendo numa variedade de língua menos exigente e mais corriqueira. É como se falasse para adultos com a modalidade própria da que se usa com as crianças, porque os considera como filhos.
Falar ou escrever para outrem, ainda que de condição cultural abaixo da sua, exige dignidade, que já é uma faceta do respeito que se deve ao semelhante. Um repórter bem vestido que fale dos Estados Unidos ou da França ao telespectador brasileiro com "vi ele" ou "encontrou ela" é como se passasse, por antecipação, um atestado de ignorância ao público, por achar que "vi-o" ou "encontrou-a" são formas de dizer incompatíveis com a pouca dignidade cultural ou o baixo grau de escolaridade terceiro-mundista. Daí, talvez, preferir chamar os telespectadores de "galera", esquecendo-se de que, quando a Orquestra Sinfônica se apresenta na Quinta da Boa Vista, a "galera humilde" vibra com os clássicos e aplaude Carlos Gomes, Chopin ou Mozart. Perde o repórter que assim procede a oportunidade de instruir os que sabem menos do que ele e esperam mais da TV brasileira.
Erro pedagógico
Tão grave quanto o desconhecimento que vimos apontando é o erro pedagógico. Partindo da idéia de que essa língua padrão ou standard é uma imposição da "classe dominante", da "língua do poder", e de que o aluno já se comunica muito bem por meio da variedade viva que trouxe de casa e vigora e revigora na rua, nas praças e até em certo tipo de literatura de crônicas do quotidiano, de fatos do dia-a-dia, com intuitos de lazer e com finais humorísticos, há professores mal informados e pedagogos engajados que defendem que a variedade a ser cultivada e cultuada na escola é essa língua "natural" falada, viva e espontânea, sob a bandeira tão aplaudida pelos jovens que não querem esforçar-se na sua risonha e brincalhona passagem pelos bancos escolares, onde a exigente e suada aprendizagem não ocupa o lugar privilegiado da merenda escolar e das brincadeiras no recreio. É pedagogia de aprender brincando. Em tudo isso há, naturalmente, honrosas exceções que, pelo seu minguado número, justificam a regra
Fonte : Revista Educação - Edição 112
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
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