domingo, 4 de agosto de 2013

Metalinguagem: Crônica DESPEDIDA

de Walcyr Carrasco

Tudo começou em abril de 1992, uma época dificílima da minha vida, há quase vinte anos. Sem emprego fixo, eu batalhava arduamente para pagar o aluguel, botar comida na mesa, enfim... Vivia de reportagens e artigos avulsos para várias revistas — os famosos “frilas”, no jargão jornalístico. Eu ainda apostava na minha carreira como escritor. Não estava na televisão. Mas uma ou outra peça de teatro de minha autoria, quando era montada, ajudava a desafogar as finanças. Até que um dia recebi um telefonema do Carlos Maranhão, hoje diretor editorial de VEJA Cidades.

— Nós vamos publicar crônicas na última página. Você está interessado em escrever?

— Claro! — respondi alegremente.

Detalhe: eu nunca havia escrito uma crônica. Desliguei o telefone e corri para a livraria. Buscar livros de crônicas, é claro! Durante alguns dias, mergulhei nos livros, tentando entender, sentir, captar o que é crônica, um gênero fluido, sobre cuja definição os autores divergem. A crônica é quase um artigo, mas não é, na medida em que se usa o “eu”. Ou seja, admite o uso da experiência pessoal, da vida e dos sentimentos de quem escreve. É quase um conto, mas também não é, porque não deriva apenas da imaginação do autor, mas de sua observação da realidade.


Sentei-me para escrever a primeira. Oh, meu Deus, num computador movido a lenha, como eram todos na época! O Maranhão ligou:

— Você fez um artigo, não uma crônica.

— Posso tentar de novo?

Eu precisava conseguir! Seria um pagamento fixo, um mínimo fundamental para as minhas finanças! Seis vezes escrevi, seis ele recusou. Mas eu insisti. Até que finalmente...

— Está boa. Na semana que vem mande a próxima.

E assim estreei nestas páginas! E paguei o aluguel! Achava que a segunda seria mais difícil. Não foi. O que começou como desespero de causa financeira tornou-se uma tarefa agradável. Nunca falhei. Os fatos da minha vida alimentaram meus textos. Certa vez estive hospitalizado. Escrevi sobre a internação! Falei sobre temas que me fascinam, como culinária, tradições, internet... Quando meu cachorro Uno ficou doente e mais tarde faleceu, abri meu coração. Minhas palavras eram lágrimas. Recebi tantos e-mails, compartilhando da minha dor!

Sempre fiz questão de dizer a verdade. Meus pais não estão mais aqui. Nas datas comemorativas, nunca fingi que estivessem vivos. Confesso: uma das maiores lutas da minha vida é contra o peso e a barriga. As lutas travadas para fechar as camisas sem que o umbigo ficasse de fora foram inúmeras. E, atualmente, só preciso perder alguns centímetros para os paletós voltarem a servir. Todas essas batalhas eu contei. Assim como meus problemas de consumidor, amizades reencontradas, loucuras da moda. E talvez por isso meu contato com vocês, leitores, tenha sido sempre tão íntimo. De certa maneira, vocês se reconheceram nas minhas dores, alegrias e pequenas indignações do dia a dia! Durante todos esses anos nós rimos e nos emocionamos juntos.

Mas agora a minha vida segue novos caminhos. E, por vontade própria, vou deixar esta página. Dói, confesso. Tenho a sensação de me despedir de milhares de amigos, todos vocês que me acompanharam nesses anos. Esta é a minha última crônica, aqui, na Vejinha. Só de saber que eu ia escrevê-la, fiquei um dia doente, de cama. E, agora, sinto o coração apertado. Eu queria poder dar um abraço em cada um de vocês. Fica o abraço, como está em moda hoje em dia, virtual. Para sempre, eu os considero meus amigos, meus leitores!
fonte:Revista VEJA SÃO PAULO, 28/09/2011

O PORTUGUÊS DE BENGALA

Crônica de Ivan Angelo
 
Desculpe o título, que pode ter levado você, leitor, ao engano de precaver-se contra alguma anedota preconceituosa ou, se é dos que apreciam tal anedotário, à decepção de não encontrar aqui o que esperava. O título se refere à língua portuguesa, “inculta e bela”, hoje também trôpega.
Trôpega, entre outras coisas, porque na língua falada no Brasil se abusa de expressões que não são necessárias para o sentido do que se fala, servem apenas de bengala para quem fala, nas quais as pessoas se apoiam no intuito de ganhar um tempinho para encaminhar melhor a ideia, ou que para nada servem, a não ser talvez manter o passo. Sem o abuso, tais expressões dão colorido à linguagem; com ele, incomodam, e aí temos a fala apoiada em bengala ou, nos casos mais graves, em muleta.
Não me refiro a cacoetes, que estes são pessoais e marcam quem fala, mas a muletas coletivas, gerais. Cacoetes são como o do tio de um jornalista mineiro que, de tanto encaixar aqui e ali a palavra “porém”, ganhou o apelido de tio Porém, a quem o jornalista pandegamente chamava de “meu tio adversativo”. Ou o daquela psicóloga mineira que, de tanto repetir “percebe”, ficou sendo a Maria Percebe. Ou o da tia portuguesa que em cada frase mete dois “portanto”.
Você naturalmente já ouviu falas que andam por aí de bengala.
 
Eis um exemplo de bengala: “Sabia?”. Na dramaturgia fácil das telenovelas, aparece vinte vezes por capítulo. Não se faz uma afirmação, por mais banal, sem apoiá-la na bengala: “sabia?”. Dá vontade de dar neles com a bengala, assim: os atores da Globo falam todos do mesmo jeito, sabia? Os mais novos vão copiando os mais velhos, sabia? Nas novelas antigas não falavam tantos “sabia”, sabia? Quase sempre são os atores que põem esses cacos, sabia?
Tem bengala que já entra no começo da fala, como o “então”. Sem quê nem pra quê, como se a pessoa concluísse uma explanação ou retomasse uma fala que não houve, alonga-se um “então” depois de um silêncio: “Então...não sei ainda se vou fazer pedagogia”.
Tem a bengala explicativa: “O que acontece?”. Precede uma explicação, uma justificativa, mas não é necessária.
Tem a bengalinha do pronome inútil (ele, ela), sem a menor função na frase: “A prefeitura ela demora trinta dias para fornecer uma guia”; jornalistas da televisão dizem: “As informações elas continuam chegando”; ou: “ O leão ele não corre de graça”.
E tem também a bengalinha da preposição inútil “em”, sem função: “Somos em quatro”; “Éramos em dois”.
Tem uma bengala já antiga na língua, o “entende?”, com a qual se pretende induzir alguém a compreender o que geralmente é simplíssimo. Joaquim Nabuco, em1900, imaginem, 1900!, já se queixava dessa bengala e de quem a usava: “Todos nós temos algum conhecido que pontua as suas frases com esse fatigante ‘entende?’ que os nervos do marquês de Maricá não podiam suportar. O ‘entende?’ do indivíduo que quer forçar o ouvinte a nada perder do que ele diz”. ( "Minha Formação", capítulo IV)
Usam-se por aí muitas outras expressões que, quando desnecessárias nas frases, se tornam penduricalhos: “tipo assim”, “não é verdade?” etc. Imagine uma fala simples:
— Não sei ainda se vou fazer pedagogia. É complicado lidar com criança. A criança exige muito, não sabe fazer as coisas sozinha. Fico na dúvida.
Tem gente que para dizer isso se apoia numa porção de bengalinhas:
—Então... Não sei ainda se vou fazer pedagogia. O que acontece? É complicado lidar com criança, sabia? A criança ela exige muito, tipo assim, não sabe fazer as coisas sozinha, entende? Fico na dúvida, não é verdade?
Prefiro a língua mais enxuta e exata. Entende?

COMO MENTIR USANDO ESTATÍSTICAS


 de Darrell Huff


Fonte: Página da Universidade Federal de Santa Catarina

As informações que serão apresentadas aqui são provenientes do livro "Como Mentir com Estatística", de Darrell Huff, com pequenos acréscimos (geralmente exemplos).

    O objetivo desta página é desmistificar muitas das idéias pré-concebidas sobre estatísticas, evitando que o "fascínio" por números e percentagens (ou a ignorância sobre como eles foram produzidos) turvem o senso crítico das pessoas.

    Nem todas as estatísticas veiculadas ao público (principalmente pela mídia) estão erradas ou merecem ser consideradas com suspeição, mas muitas vezes as informações são apresentadas de forma tão incompleta que se torna difícil acreditar nelas.

Para verificar a validade de uma estatística, seja ela veiculada em um jornal de grande circulação, na TV, ou em uma revista especializada, você deve fazer cinco perguntas:

        Quem é que diz isso?
        Como é que ele sabe?
        O que é que está faltando?
        Alguém mudou de assunto?
        Isso faz sentido?

Quem é que diz isso?
Procure sempre saber quem está divulgando a estatística: pode ser uma empresa no meio de uma negociação de salários, ou um sindicato na mesma situação, ou um laboratório "independente" que precisa mostrar resultados, ou simplesmente um jornal atrás de uma boa matéria.

Uma empresa americana declarou que os salários no segundo semestre de um ano estavam muito acima daqueles pagos no início do ano, portanto não era hora do sindicato pedir um aumento. O que a empresa "esqueceu" de dizer é que no início do ano havia uma grande quantidade de trabalhadores de meio-período, e que estes passaram a cumprir turno integral a partir do segundo trimestre do ano, sendo assim seus salários teriam que forçosamente subir, mas isso não implica que os salários tenham "melhorado realmente".

Procure os viesamentos, deliberados ou inconscientes, aplicados aos resultados. Quando ouvir "pesquisa feita por médicos americanos revela..." tome cuidado: que médicos são estes? Cuidado com as declarações do tipo "Universidade de Harvard descobriu que...". Verifique se realmente há pessoas qualificadas da "instituição de prestígio" em questão divulgando as descobertas.

Em 1994 foi divulgado um relatório otimista sobre o número de árvores nos Estados Unidos: os peritos chegaram à conclusão que havia muito mais árvores em 1994 do que houvera em 1894 (cem anos antes). Fonte do levantamento: o equivalente a uma associação de madeireiras... Onde está o viés? Está na definição de "árvore": os peritos consideraram "árvore" tanto uma sequóia centenária de 100 metros de altura quanto uma muda de Pinus plantada há pouco...

Um outro viesamento muito comum é encontrado na forma de apresentar os resultados. Veja o exemplo abaixo, referente aos salários de 11 pessoas de uma empresa:



Alguém da direção desta empresa poderia afirmar que o salário "médio" é de 1236,36 u.m., portanto o nível salarial nesta seção é "muito bom". Alguém do sindicato protesta e diz que na verdade o salário "médio" é de 350 u.m., o que não é um nível "muito bom". Qual dos dois está errado? Surpreendentemente nenhum deles. O homem da direção usou a média aritmética para calcular o salário "médio": a média aritmética pode ser distorcida por valores discrepantes, o que se comprova ao observar na tabela os salários das pessoas 10 e 11 que estão bem distantes da maioria dos outros. Já o homem do sindicato usou uma outra medida estatística a mediana: a mediana divide um conjunto ordenado de dados em duas partes iguais, metade é maior do que a mediana e metade é menor do que a mediana. Na tabela acima a pessoa 6 é "ponto central" e seu salário de 350 u.m. (salário mediano) representa muito melhor o conjunto.

Como é que ele sabe?
Como aqueles que estão divulgando a estatística obtiveram a informação? Se a estatística foi obtida através de uma amostra procure indícios de viesamento: uma amostra selecionada indevidamente, ou que não seja grande o bastante para permitir uma conclusão confiável.

Um caso típico de amostra selecionada indevidamente são as estatísticas resultantes de pesquisas feitas pelo correio: o pesquisador envia pelo correio questionários aos entrevistados, solicitando que eles os preencham e devolvam. Faça a si mesmo esta pergunta: "quantos questionários eu já recebi pelo correio e quantos eu já respondi"? Neste tipo de procedimento de pesquisa o percentual de pessoas ou organizações que efetivamente respondem aos questionários costuma ser muito reduzido, de modo que esses resultados não podem ser considerados representativos.

Quanto às pequenas amostras é necessário maior cautela ainda. Utilizando uma pequena amostra o resultado obtido pode ter ocorrido totalmente POR ACASO! O pesquisador pode ter tomado todos os cuidados, selecionado os elementos da amostra com critério e portar-se com a maior honestidade imaginável, mas a chance de um resultado "por acaso" é muito alta. Quando a amostra é suficientemente grande este risco persiste, mas a probabilidade de sua ocorrência reduz-se drasticamente. Se alguém diz a você que após tratar dez ratos diabéticos com certa erva medicinal,a sua taxa de glicose baixou 2,4%, e que com isso foi provadoestatisticamente que a erva auxilia no tratamento do diabetes, o que você fará? Observe o tamanho da amostra (apenas dez ratos) e a redução obtida (que nesta amostra poderia ter ocorrido totalmente por acaso).

Um dos casos mais intrigantes para nós brasileiros é o resultado de uma pesquisa eleitoral. É plenamente possível obter resultados confiáveis utilizando metodologias de amostragem e tratamento de dados adequadas. Mas não se esqueça que há uma variação em torno dos percentuais (mais ou menos 5%), e que há uma pequena probabilidade (geralmente da ordem de 5%) de que o valor "verdadeiro" do percentual não esteja naquele intervalo.

O que é que está faltando?
Alguma coisa sobre isso já foi discutido nos itens anteriores. Muitas vezes o tamanho da amostra utilizada, ou o perfil dos seus elementos sequer é divulgado. Há casos em que os número brutos são suprimidos e apenas os percentuais são apresentados, em outros casos é justamente o contrário. As condições que podem ter levado aos resultados também costumam ser suprimidas.

Se alguém diz que 33,33% (percentual) das mulheres de um curso casaram-se com professores você poderia ter uma má impressão destas moças. Mas se alguém diz que das três mulheres (dados brutos) deste curso uma delas casou-se com um professor o efeito já não será tão grande.

Um jornal afirma que a safra de um ano é quatro vezes maior do que a do ano anterior, o que evidencia a produtividade e o trabalho do homem do campo! Nada contra o homem do campo (que trabalha muito e ganha pouco), mas o jornal pode ter se esquecido de dizer que no ano anterior houve uma enchente que dizimou cerca de 80% da safra prevista, o que torna o ano totalmente inadequado para servir como base para o cálculo.

"Podemos mensurar o aumento da violência pela comparação entre o número de estupros de hoje e o de vinte anos atrás". Qualquer um sabe que a violência está aumentando, mas talvez o número de estupros fosse maior há vinte anos, quando as mulheres sentiam-se muito mais constrangidas em denunciar seus agressores e preferissem o silêncio. Com o passar do tempo, e com a conscientização o número de denúncias aumentou, não necessariamente indicando que a violência aumentou por causa disso... Cuidado com as correlações: identificar que duas variáveis caminham na mesma direção ou em direções opostas NÃO SIGNIFICA NECESSARIAMENTE que a variação de uma causou a da outra (podem haver outras variáveis influenciando ambas).

Alguém mudou de assunto?
Se alguém constata que o número de casos comunicados de uma doença aumentou e diz que o número de casos ocorridos da doença aumentou (veja o que uma única palavra pode causar) está mudando de assunto. Algumas pessoas mais impressionáveis poderiam pensar que há uma epidemia, ao invés de uma maior precisão nos diagnósticos que agora classificam como câncer de mama o que antes era "mal de peito".

Uma pesquisa eleitoral, por mais bem conduzida que seja, não indica em quem as pessoas realmente vão votar, mas em quem elas dizem que vão votar naquele momento (alguém que se diz indeciso pode já ter o seu candidato escolhido desde o berço, outro que afirma votar na situação assim procede por ser funcionário público, etc). Assim, se você faz uma pesquisa entre advogados e descobre que eles se acham mal remunerados por seus serviços, e você divulga que os profissionais liberais (incluindo nesta categoria várias outras profissões) se acham mal remunerados você está mudando de assunto.

"A 'população' de uma grande área da China era de 28 milhões. Cinco anos depois chegava a 105 milhões. Muito pouco desse aumento era real. A grande diferença só pôde ser explicada levando-se em conta as finalidades das duas coletas censitárias e a maneira como as pessoas se sentiram ao serem contadas em cada caso. O primeiro censo foi para fins de tributação e serviço militar; o segundo para ajuda em caso de fome".

Isso faz sentido?
Será que o resultado divulgado de uma estatística faz sentido? Será que analisando os resultados sem se deixar impressionar pelas casas decimais e percentuais os resultados são "lógicos"? Avaliar com bom senso se a estatística se coaduna com os fatos ao seu redor pode nos proteger de cair em muitas falácias.

Logo após a primeira crise do petróleo, em 1973, calculava-se que em 1985 o preço do barril estaria por volta de US$ 80. Sendo assim, muitas formas de energia alternativa foram desenvolvidas tendo em mente aquele valor, acreditando que aquela tendência de crescimento seria mantida, o que não aconteceu: o preço do barril despencou em 1986 e as formas "alternativas" tornaram-se economicamente inviáveis (o que não quer dizer que também o sejam por outros critérios).

Usar tendências antigas, observadas em épocas em que o mundo era muito diferente do que é hoje é extremamente perigoso. Você acha que o Brasil de 1980 é o mesmo Brasil de 1997? A definição de "família padrão" em 1960 continua válida hoje? Extrapolar tais tendências e acreditar que tais conclusões são válidas é, no mínimo, ingênuo.

Estatísticas do tipo para cada dez brasileiros dois têm diabetes: isso significa para uma população de 150 milhões de habitantes 30 milhões de diabéticos! Se for verdade possivelmente não haverá insulina suficiente no país inteiro para tratar tanta gente...


 

A tentação dos números

SUZANA SINGER
Folha de S. Paulo,     08/01/2012

Em excesso e sem a devida contextualização, cifras enchem o noticiário e não fazem sentido para os leitores


No impreciso e subjetivo mundo em que se move o jornalismo, números são tentadores. Eles conferem uma aura de cientificidade, passam a impressão de que aquela reportagem diz a verdade, que não se baseia em declarações ou opiniões.

As cifras se espalham pela Folha, muitas vezes, maltratadas. Na segunda-feira passada, a manchete dizia: "PF apurou desvios de R$ 3,2 bilhões em 2011". O título interno informava que era um recorde.

O leitor entendeu que o ano passado foi marcado pela corrupção, mas não era isso. O montante inclui somas descobertas em investigações anteriores, isto é, a malversação pode ter acontecido em 2010, 2009... Esse detalhe está perdido no texto, sem destaque.

No dia seguinte ao Natal, outra manchete brandia um número cheio de zeros: "País perde R$ 15 bi com acidentes em estradas neste ano". A reportagem principal, de apenas 14 parágrafos, tinha 15 dados.

A explicação sobre como os especialistas calculam o prejuízo com as vítimas do trânsito (os gastos no atendimento e quanto a pessoa deixa de produzir) ficou socada em poucas linhas, incompreensível.

Para evitar "pecados matemáticos", a Folha poderia adotar alguns mandamentos:

1. NÃO DIVULGARÁS NÚMEROS SEM CONTEXTUALIZÁ-LOS
É impossível saber se "os 308 consultórios de rua para tratar dependentes de crack no Brasil", a serem criados pelo governo federal, são suficientes se o jornal não informa quantos são os viciados e quantos postos desse tipo o país tem (8/12).
Da mesma forma, não faz sentido relatar que, com a crise na Europa, "saíram 76,4 mil pessoas" da Irlanda, sem citar a população total do país (26/11).

2. NÃO REPETIRÁS NÚMEROS SEM QUESTIONÁ-LOS
Alguns dados, de tão repisados, ganham ares de verdade. Em maio, o Twitter anunciou ter chegado aos 139 milhões de usuários e virou praxe falar dos "mais de 100 milhões de tuiteiros no mundo".
No último dia 10, uma coluna da "Ilustrada" citava artigo da "New York" que lançava dúvidas sobre esse dado. Descontadas as contas inativas e duplicadas, seriam 50 milhões em todo o planeta.
Não adiantou. Cinco dias depois, a Folha voltava aos "100 milhões" de usuários do Twitter.

3. DUVIDARÁS DAS FONTES
É um erro engolir estatísticas sem olhar onde elas nasceram. No último dia 14, uma reportagem sobre investimentos de sites de empregos informava que quase um terço dos internautas no Brasil acessam páginas de recrutamento. Quem calculou isso? Uma consultoria. Com que metodologia e a pedido de quem? Não sabemos.

4. NÃO TE PRECIPITARÁS
Bastou uma segunda-feira de audiência menor para que a seção "Outro Canal" concluísse que a apresentadora Patrícia Poeta fez mal ao "Jornal Nacional". A coluna do último dia 14 começava perguntando ao leitor se "já bateu saudade de Fátima Bernardes" e contava que o telejornal tinha registrado sua pior segunda-feira no ano.
Para constatar uma tendência, é preciso esperar, não adianta sacar uma conclusão com base no número mais recente.

5. SERÁS COMEDIDO
Por incompreensão ou falta de cuidado, recheia-se o noticiário com tanto número que ele se torna indigesto. Talvez o mandamento mais importante seja resistir à tentação e fazer uma dieta de números. Início de ano novo é um bom momento para isso.

Folha de São Paulo. Ombusman, A8. 8/01/2012

Radicais/morfemas (formação de palavras)



Empresas e áreas do governo estão com sinofobia.

ELIO GASPARI Para empresários e áreas do governo, o produto chinês pode destruir a economia nacional. Se quer proteção, a indústria precisa ter desempenho e metas. Quanto tempo é necessário para fazer camisetas competitivas? Poder A12

Folha de São Paulo 08/01/2012

terça-feira, 2 de julho de 2013

Texto com vários advérbios


O  rei cria uma patrulha :
 
    Mais uma vez, o rei das palavras cria novos súditos para atender aos humanos. A missão dos advérbios é controlar e até modificar o sentido dos verbos. Infelizmente, acabam se transformando em armas, usadas por  mães dominadoras, para controlar as ações de suas filhas.
     Os advérbios de modo, tempo e lugar são os primeiros que a mãe quer saber quando a filha vai sair com o namorado. São os famosos “como’’, “quando’’ e “onde’’.
     Já o de afirmação costuma ser usado para obrigar ou forçar a barra. Você vai dormir “incontestavelmente’’.
      O advérbio de negação serve para cortar qualquer barato. Você “não’’ sai ele “não’’ entra.
      As mães utilizam os advérbios de dúvida, ora para mandar indiretas, ora para sondar as filhas.“Acaso’’, “porventura’’, “talvez’’ e “provavelmente’’ são deles.
     Os advérbios de intensidade são os piores de todos. Eles conseguem perturbar verbos, adjetivos e a eles próprios. As mães reclamam: você namora “demais’’. Depois, se fazem de vítima: estou “tão’’ aborrecida. Por fim exageram:  você está agindo “muito’’ mal.   COITADAS DAS FILHAS!                                                                                                      (Cecília  Vasconcelos, O rei das palavras)

segunda-feira, 10 de junho de 2013

DISCURSO NOS SITES DE RELACIONAMENTO


Na internet, homens se vendem como carros"

Estudioso da linguagem usada em um site de namoro, o pesquisador francês Dominique Maingueneau diz a ÉPOCA que os homens "se vendem como se fossem carros" nesse ambiente virtual, descrevendo-se de forma muito objetiva. As mulheres, afirma Maingueneau, são mais misteriosas e tentam criar um clima romântico.

Gisela Anauate

ÉPOCA - O que é o ethos?
Maingueneau - Quando uma pessoa fala ou escreve, constrói um personagem. E manipula a linguagem, para fabricar uma impressão de honestidade. A partir disso, o leitor constrói uma imagem de quem está falando. Essa representação que a pessoa faz de si é o ethos.

ÉPOCA - Na internet, é possível medir o quanto esse ethos corresponde à realidade?
Maingueneau: É difícil. Se você não vê a pessoa, como saberá? É tudo virtual e são usados pseudônimos. É por isso que os usuários de sites de namoro procuram não se encontrar. Para não haver um choque entre a realidade e o discurso.

ÉPOCA - Qual o papel dos pseudônimos? Eles transmitem informações?
Maingueneau - Sim. Há pessoas que usam o pseudônimo só para ter um nome, como Paulo ou Fabiana. Outros, por meio desse nome, procuram construir um ethos, um personagem, como "vida do éden", "carícia", "história maravilhosa".

ÉPOCA - Existe alguma semelhança entre os personagens criados pelos internautas e os da literatura?
Maingueneau - Não diria que os anúncios dos sites de namoro tenham qualidade literária, mas têm relação com a literatura. Quando você escreve um anúncio, atinge muito mais leitores que os escritores profissionais. A literatura não pode mais se limitar às formas publicadas por editoras especializadas. Quando você procura escrever ou falar bem e tenta fazer um espetáculo com a linguagem, já está entrando na literatura. Sobretudo porque, por meio do discurso, você está construindo uma imagem do que quer ser. E escrever literatura é ter a chance de ser alguém diferente.

ÉPOCA - A linguagem escrita é um recurso importante na internet. Isso irá mudar?
Maingueneau - A escrita não tem a mesma importância na internet e nos livros. No livro, o texto escrito é só escrito. São páginas brancas, normalizadas e monótonas. No caso da internet, o que chamamos de texto é já uma imagem. O texto é uma encruzilhada de textos – você está sempre clicando. Estamos mais na função de um manipulador ou operador do que na posição do leitor. A experiência mostra que no futuro haverá uma superposição de várias camadas de texto e vídeo.

ÉPOCA - No papel de “Zerbinet”, seu pseudônimo na rede, o senhor recebeu alguma cantada?
Maingueneau - Sim, é inevitável! Recebi vários “flashs”, que são um sinal de que alguém está interessado em você. Recebi mensagens também, mas obviamente nunca as respondi.

Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI8846-15228-2,00-NA+INTERNET+HOMENS+SE+VENDEM+COMO+CARROS.html

Linguagem rebuscada

 
Faulkner e os cardápios polifônicos
 
Fabrício Corsaletti (FSP 5/05/2013)
 
Sem falsa modéstia: estou longe de ser a pessoa mais inteligente que conheço. Mas também não estou entre as mais estúpidas. Por exemplo, eu leio Faulkner (1897-1962), um escritor considerado difícil. Leio e entendo, quase sempre, o que ele diz. Ler Faulkner me dá a certeza de que meu cérebro funciona. De que minha percepção da realidade pode se aprimorar e ganhar mais consistência.
Num sábado desses passei o dia lendo "O Som e a Fúria", uma das suas obras-primas. Li as primeiras 70 páginas, cujo narrador é um deficiente mental. Acho que foi das experiências mais trabalhosas e intensas que tive como leitor. Fechei o livro com a sensação de que um ciclope tinha me atirado cem vezes contra uma cerca de arame farpado, como num pesadelo de que não se consegue despertar.
De noite saí pra jantar com a minha namorada. Fomos a um restaurante novo no Itaim, com decoração minimalista em vermelho e amarelo e garçons de bigodes retorcidos. Me acomodei na poltrona alaranjada e, morto de fome, li o cardápio. E, juro, tive dificuldade pra atinar com o significado de descrições como "vitela polvilhada em talos de aipo genovês sob cama de cebolas húngaras entrelaçadas com fios de 'baby cranberry al dente'".

O prato poderia se chamar "malabarismo verbal", "parnasianismo pós-moderno", "a volta dos adjetivos (uma homenagem a Victor Hugo)", mas tinha sido batizado de "nice vitela", o que me deixou ainda mais confuso: seria uma variação de algum prato de Nice, a cidade francesa, ou uma vitela norte-americana e legal? Pedi ajuda pra minha namorada, mas ela também estava atônita. Acabei escolhendo uma sopa que, surpresa, não era líquida e parecia um sanduíche de carne louca multicor. Sou um sujeito aberto pro inesperado. Comi a sopa (que frase!) e fui mais ou menos feliz.
A cerveja ainda não tinha chegado quando dei a última mordida. Minutos depois, foi despejada como uma cachoeira em cima da minha perna. O garçom de cavanhaque surrealista fingiu que nada tinha acontecido. Peguei o guardanapo e tratei de me enxugar. Aí ele deu um risinho cínico e disse:
- Não se preocupe, não foi nada.
Essa fala era minha, certo? Ou será que agora eu tinha que pedir desculpas a ele? Já fui garçom, me formei numa faculdade onde boa parte dos professores eram marxistas e há 13 anos faço análise. Respirei fundo e, em vez de mandar o cara pra onde ele merecia, implorei pela conta e saímos. Na calçada, cinco dos sete garçons "hipsters" tomavam cerveja e fumavam. Talvez isso tivesse alguma relação com o atraso dos pedidos, mas vai saber.
O fato é que voltei pra casa menosprezando Faulkner. Sua visão de mundo era estreita comparada à complexidade da vida paulistana atual, e sua linguagem, em termos de sofisticação, não chegava aos pés da utilizada nos cardápios polifônicos. Imaginei como ele se sairia em São Paulo, se uma máquina do tempo o ressuscitasse e o abandonasse aqui, e concluí que seria esnobado feito porco em churrasco de judeu.
No domingo recobrei a lucidez. E decidi ficar em casa. Lendo Faulkner, claro.